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sexta-feira, 31 de maio de 2019

O labirinto do Minotauro


Conta a mitologia grega sobre Dédalo, um grande engenheiro e inventor que, certa feita, foi requisitado pelo Rei Minos para construir um imenso labirinto que pudesse aprisionar um ser metade homem, metade touro, o Minotauro. Esse ser, por sua aparência medonha, foi menosprezado por toda a sua vida, tornando-se um monstro enfurecido que se alimentava de carne humana.
Aceitando a empreitada, Dédalo iniciou o trabalho da construção do labirinto utilizando todo o seu conhecimento. Eis que, de repente, seu trabalho tornou-se tão perfeito que ele mesmo se viu aprisionado dentro do próprio labirinto que construíra, junto com o Minotauro que vagava pelos corredores de idas e vindas do local. Dédalo, a muito custo, alcançou a saída, não sem antes ter tido que encarar o medo de não conseguir encontrar sua liberdade e ser devorado.
***
Quantas vezes em nossas vidas acabamos como Dédalo? Quantos “labirintos” em nossa mente e em nosso espírito nós mesmos criamos para isolar nossos monstros, e no fim, acabamos por estarmos presos junto deles, sem conseguir encontrar uma saída? Quantos desses monstros devoradores de gente que nos cercam são como o Minotauro, resultado de acúmulo de medos, desprezos e negações desde nossa mais tenra infância?
Quantos de nós já desistiram, e vivem apenas se esgueirando nesses obscuros corredores da mente, apenas torcendo para que o Minotauro não os encontre? Quantos outros decidiram de corpo e alma encarar o desafio e encontrar a saída? Para esses, fica a pergunta: quais são os nossos recursos disponíveis, ou que podem ser desenvolvidos, para encarar a saída desse labirinto?
A busca de Dédalo pela sua liberdade de algo que ele mesmo criou é metáfora viva das coisas que nós também criamos e acabamos aprisionados. Valer-se de todo o seu conhecimento e autoconhecimento, de sua engenhosidade e de seus dons foi o que salvou Dédalo. Resta-nos elevar nossa visão e perceber em que pontos de nossa vida estamos em emaranhados aparentemente insolúveis, nos quais cada vez nos embrenhamos na escuridão mais e mais. Quais padrões de comportamento vamos repetindo e repetindo obtendo resultados pífios. Quais modelos de pensamento que nos causam apenas dor, em nome de uma pretensa segurança.
Não há quem não viva em seus labirintos. Não há quem não conviva com seus Minotauros. Há, porém, os que procuram olhar ao redor e interpretar o aqui e agora além de seus próprios mapas mentais, e a todo amanhecer não apenas torcem para encontrar saídas, mas vão se nutrindo física, mental e espiritualmente para complementar a empreitada que chegará com a luz do portão de saída.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli


terça-feira, 7 de maio de 2019

Inteligência para resiliência

Termo que vem primordialmente da física, e que conceitua o quanto de energia ou pressão um material consegue suportar sem se romper e voltar ao seu estado anterior, “resiliência” tem sido também, nos últimos anos, um termo utilizado para designar o quanto de reveses e intempéries uma pessoa é capaz de suportar física, mental, espiritual e emocionalmente. É uma palavra que está no vocabulário atual, a ponto de algumas pessoas reconhecerem-se como “resilientes”.

Que a vida vai nos apresentar contextos desafiadores é fato. Que seremos personagens de contextos indesejados também. Assim, “ser resiliente” parece ser uma habilidade vantajosa de ser desenvolvida.

Mas como?

Só se conhece a resiliência de um material quando ele é testado na pressão. Será que para conhecermos nossa resiliência pessoal também precisamos de uma forte dose de sofrimento? E se não “passarmos no teste”, e nos despedaçarmos, nos mais diversos sentidos?

Suportar o sofrimento estoicamente até pode ter um quê de admirável, de romântico, do arquétipo de guerreiro. No fundo, se esse sofrimento não gerar aprendizado potencializador, acabará sendo perdida uma grande chance de evolução. Pensemos que, antes de associarmos resiliência pessoal à capacidade de aguentar o sofrimento por si só, a associemos à inteligência de encontrar as melhores estratégias para conviver e superar o contexto indesejado em que nos encontramos. Inteligência, aqui, trazida como uma capacidade de se resolver problemas com uma visão de futuro.

Encontrar caminhos, desenvolver táticas, aprimorar flexibilidade, fazer uso de nossas faculdades cognitivas e comunicativas, autoconhecer-se, agir ou não agir, todas essas são formas estratégicas de sermos resilientes em momentos de sofrimento. Pensemos que, de qualquer forma, a pressão continuará sendo exercida sobre nós, teremos que ser “fortes” de qualquer jeito, a diferença é que essa resiliência estratégica nos proporciona muito mais potencial para suplantarmos esses momentos e, finalmente, voltarmos a nossa forma inicial. Lembremos que essa é uma grande vantagem que temos sobre a borracha, o concreto, ou outro material sujeito a um teste de resiliência: a esses, só lhes resta suportar. A nós, é dado o dom da inteligência.


O sofrimento ou nos humaniza, ou nos embrutece. São nossas estratégias de resiliência que definirão o resultado.



Grato pela confiança,
Marcelo Pelissiloli
 
 
 

sábado, 6 de abril de 2019

“Eu tenho que” ou “eu escolho”?


O que define a maturidade de uma pessoa, em termos psicológicos? Acredito que não seja a idade, nem as experiências, e nem ao menos a capacidade prática de se lidar com a própria realidade a partir do seu ângulo de visão, mas sim, entendo que a maturidade é atingida quando assumimos 100% a responsabilidade sobre nossas vidas.

Assumir essa responsabilidade é questão de exercício, e cada pessoa levará o seu próprio tempo para chegar ao estágio máximo dessa consciência. Muitos entre nós, inclusive, não conseguirão chegar a essa conclusão em seu tempo de vida.

Lembremos que existem ocorrências que temos controle direto, realidades que podemos criar, outras que podemos alcançar um controle indireto, e outras que absolutamente não teremos controle nenhum. Mesmo assim, a ilusão de que podemos exercer controle sobre tudo, ao contrário de parecer libertadora, é uma verdadeira prisão de grades feitas de ansiedade e angústia. Em outras palavras, os contextos os quais seremos personagens nem sempre serão de nossa preferência.

Nesses momentos, somos levados a “ter que” agir como se fôssemos escravos de nós mesmos. “Preciso acordar muito cedo porque tenho que trabalhar”. “Preciso trabalhar porque tenho que pagar minhas contas”.  “Tenho que me esforçar mais do que os outros porque meus pais não me deram estudo”.  “Tenho que parecer feliz para que as pessoas gostem de mim.” “Tenho que fazer dieta porque não me sinto bem com meu corpo”.

É muito provável que o contexto em que você está não esteja sobre seu controle, mesmo. É muito provável que esteja fora do seu controle ter um emprego estável sem ter que acordar cedo. Que o trabalho formal seja, de imediato, uma forma mais segura de pagar as contas. Que sua infância tenha sido bem mais carente do que a de outras pessoas do seu círculo social. Que, com tudo isso, a atenção ao seu corpo físico tenha ficado em segundo plano.

São exemplos de contextos que não temos muito controle. Você não é necessariamente responsável por esses contextos.

Então, o que você “tem que fazer”?

NADA. Absolutamente, você não “tem que” fazer NADA!

O segredo está naquilo que você ESCOLHE fazer nesses contextos. Como escolhe se comportar, e como escolhe agir. “Eu escolho acordar cedo para trabalhar, de livre e espontânea vontade, pois escolho ter mais liberdade e tranquilidade para pagar minhas contas”. “Eu escolho me aprimorar nos meu tempo disponível porque isso é parte do caminho para meus sonhos”. Eu escolho manter os melhores níveis de relacionamento com as pessoas, para meu próprio bem-estar”. “Eu escolho ter carinho com meu corpo físico, pois ele é o templo onde residem todas as minhas aspirações e potencialidades”.

No fundo, tudo o que fazemos, pensamos e sentimos são nossas escolhas.  Ser consciente de que somos 100% responsáveis por elas é primordial para deixar de enganar a si mesmo e seguir evoluindo.

Encerro com os ensinamentos de Sun Tzu, que no clássico “A Arte da Guerra” nos ensina: “A água escolhe o seu percurso de acordo com o terreno que atravessa. O guerreiro busca a vitória de acordo com o inimigo que enfrenta”.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli



quarta-feira, 13 de março de 2019

A Curva S dos nossos projetos


Imaginemos o início de um projeto qualquer: um novo emprego, um novo relacionamento, a aquisição de um grande bem, qualquer coisa. Saibam que, a todo momento, esse projeto pode ser graficamente  apresentado a partir da chamada Curva S.












A base do S é o início do projeto. Ele costuma ter desenvolvimento lento, na mesma proporção em que nosso aprendizado vai se construindo ao longo do tempo. A evolução que começará a apontar o desenho do S para cima terá início a partir do momento em que sistematizações começarem a funcionar, de modo que o aprendizado começa a ser mais prático, intuitivo e rápido. Essa linha em ascensão, inevitavelmente, chegará a um platô de evolução onde não mais apontará para cima, mas sim, cada vez mais para a direita. É o momento em que já há muito se superou a fase do aprendizado, que já não há mais para onde subir ou melhorar, e já podemos nos considerar  vivenciadores avançados naquele contexto.

Quando nos encontramos na ponta extrema superior do S, existem três possibilidades:


1)      Plantar-se nesse contexto sem criar novas perspectivas. O famoso “em time que está ganhando, não se mexe”. Mas, pensando bem, temos controle sobre a forma que os times que até então estavam perdendo para nós vão jogar amanhã? Deixando tudo como está, estamos sendo responsáveis pela manutenção do sucesso de nossos projetos, ou apenas contando com a sorte?

2)      Ver o topo, o fim do S como um precipício sem fim. Sentir no coração uma ponta de frustração ao perceber que se chegou ao topo, e que não há mais para onde subir. À beira da escuridão de um precipício o qual escalamos com força e vontade genuínas, alguns de nós podem ficar contemplando o vazio indefinidamente. Outros podem, em um momento de desespero, se atirar no nada. E outros podem aproveitar o momento para ir ao próximo nível de seus projetos, sonhos e objetivos.

3)      Iniciar uma nova curva S! Elevar os padrões! “Subir a régua”!  Quando nos sentimos em um platô de evolução, nada nos impede de o utilizarmos como uma base para um salto que nos levará ao ponto inicial de um novo S em nossa vida, passando novamente pelos estágios de lento aprendizado, evolução e manutenção do status quo.



A mudança que tanto esperamos não precisa necessariamente ser de emprego, de pessoas, de recursos financeiros ou de possibilidades. A mudança mais importante de todas é quando percebemos que paramos de evoluir, e decidimos retomar nossa evolução elevando nossos padrões começando de novo de um patamar mais alto, de forma consciente e responsável.


E assim, indefinidamente podemos seguir nos elevando ao longo da vida. O aprendizado de hoje é o elemento essencial para o avanço de amanhã. Vamos empilhando Ss ao longo do tempo. E que cada um deles seja o guardião de uma história inspiradora a quem nos perguntar como anda nossa vida.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli

domingo, 10 de fevereiro de 2019

O retorno de (todos) seus investimentos


Existe uma métrica financeira utilizada no meio corporativo, mais conhecida pelo acrônimo ROI. O Return On Investment (retorno sobre o investimento) é calculado a partir da receita da empresa, subtraindo os custos e, por fim, dividindo esse resultado pelos mesmos custos. Com isso, obtêm-se o índice ROI.

Esse índice transforma em um número toda uma cadeia de acontecimentos dentro dos processos de uma empresa. Apesar de parecer uma supersimplificação de uma série de fatores, termos a consciência de qual retorno estamos tendo de nossos investimentos, sejam eles financeiros ou não, vai totalmente ao encontro da célebre frase de Willian Edwards Deming, uma referência mundial da Administração moderna:  “o que não pode ser medido, não pode ser gerenciado”.

Medir e gerenciar seus investimentos. Naturalmente, a primeira ideia que nos vem são investimentos financeiros, nossa vida financeira. E essa é uma boa dimensão para iniciarmos nossa reflexão sobre qual o ROI estamos obtendo na vida financeira. Qual retorno estamos tendo na relação entre o que ganhamos e o que gastamos? Vamos bem mais a fundo: qual tem sido o ROI de nossa vida financeira em termos de felicidade, plenitude e autorrealização?

Lembremos que durante todo o tempo de nossa vida estaremos investindo. Não é apenas dinheiro. Investimos nosso tempo em alguma atividade (ou inatividade), investimos nossos sentimentos, investimos nossa atenção, investimos nossa energia, investimos nossa saúde física, mental, espiritual. Enfim, o tempo todo estamos investindo nosso bem mais precioso. NOSSA VIDA!
E qual tem sido o retorno desse riquíssimo investimento?

Qual tem sido o ROI em nossa saúde física? Estamos satisfeitos com seus resultados? Os investimentos estão sendo bem realizados? Qual retorno estamos tendo em nossos relacionamentos? Estamos investindo o suficiente e o essencial para que eles rendam bons frutos? Qual tem sido o retorno obtido dos lugares que frequentamos, das coisas que lemos, que assistimos, que nos envolvemos?

Temos tido ganhos nos nossos investimentos emocionais? Estamos tirando proveito daquilo onde estamos focando nossa atenção? Estão esses investimentos correndo o risco de trazer ganhos rápidos hoje com grandes perdas amanhã?

De todas essas reflexões, você com você mesmo, construa seu  ROI de investimentos pessoais. Qual é o seu “perfil de investidor”? Em qual dimensão da vida terás melhores resultados trabalhando de modo mais conservador? Onde precisa ser mais moderado? Onde precisas ser mais arrojado para desfrutar melhor seus investimentos?

Obter um retorno desejável daquilo em que investimos é questão de sustentabilidade, em todas as dimensões da vida. Se alguma dessas dimensões não se sustentar, todas as outras correm perigo de “falir”. E a falência financeira é apenas uma das falências que nossa vida pode ter que enfrentar.
Que nossa vida traga os melhores rendimentos a partir daquilo em que investimos.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli



domingo, 13 de janeiro de 2019

O elo mais fraco


Quando focamos em nossas metas e objetivos, normalmente somos guiados e impelidos por nossos valores, nossos pontos fortes, nossas “fortalezas”, como a Psicologia Positiva os chama. Porém, o que determinará até aonde poderemos chegar, são nossos pontos fracos.

          Ter uma percepção apurada de nossos pontos frágeis e limitações, seja no campo cognitivo, físico, emocional ou financeiro, ao contrário do que possa parecer, é parte integrante de um processo mais amplo de autoconhecimento.  Isso porque uma limitação, ao torna-se consciente, possibilita sua própria evolução para outro status, deixando de ser um ponto cego em nosso ser e tornando-se um reconhecido elemento a desenvolver. Até o momento em que nossos pontos fracos estão sorrateiramente escondidos nos recônditos sombrios de nosso inconsciente, podemos  dizer que são “incompetências inconscientes”, ou seja, temos fraquezas que nem sequer sabemos, e com isso, caso a vida nos demande competência em algo que não está bem trabalhado em nós mesmos, é provável que nossos resultados não sejam os melhores. Apenas quando trazemos nossas incompetências à luz da consciência é que podemos trabalhá-las e desenvolvê-las para que de incompetências, tornem-se competências conscientes.

          Perceba-se que reconhecer as próprias limitações em nada está associado com o comportamento de se cultuá-las, ao ponto de se vangloriar das próprias fraquezas como se fossem uma força. Repetir ao longo da vida que não somos bons em algo, que não temos determinada habilidade, que emocionalmente somos instáveis, entre outras, apenas demonstra o primeiro passo, que somos incompetentes conscientes. Focar dessa forma engessada em nossas fraquezas dificulta reconhecer nossas próprias forças. O quanto que permanecer conscientemente incompetente em algum aspecto te desconecta de seus propósitos de vida?

                A força de uma corrente, ao contrário do que pode parecer, está em seu elo mais fraco. É esse elo, quando estiver a ponto de se romper, que determinará qual o poder de toda a corrente. Identificar onde esse elo está, e desenvolver recursos para fortalecê-lo, vai fazer com que a corrente como um todo se torne mais forte, sendo capaz de cumprir sua função de corrente com muito mais eficiência.


Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli




domingo, 16 de dezembro de 2018

Um ano novo sustentável

Quem já se permitiu passar por um processo de Coaching, ou quem em breve passará, já conheceu ou vai conhecer uma das ferramentas clássicas desse processo transformador: a Roda da Vida. Nela, cada um de nós consegue enxergar sua vida de uma forma inédita, única, de modo gráfico. Com essa ferramenta, identificamos quais dimensões de nossa vida estão firmemente se sustentando, quais estão sustentando outras, e quais absolutamente estão em um momento insustentável.

"Sustentabilidade" é uma palavra que vem entrando em nosso vocabulário de forma cada vez mais intensa. Antes de um modismo, precisamos perceber que apenas o que é sustentável de fato persiste ao longo dos anos. E com a Roda da Vida, torna-se vertiginosamente claro quais são os pontos sustentáveis ou não de nosso momento existencial, e com qual intensidade convivemos com cada um desses pontos. 

Se podemos considerar nossa vida financeira sustentável, ao preço de que nossa saúde emocional não esteja, qual poderá ser o resultado disso? Se minha saúde física vive abalada por doenças de origem emocional, o que poderemos esperar colher em alguns anos? Se sustento meu lazer e diversão à base da insustentabilidade de minha vida financeira, qual é a minha perspectiva? Se meu relacionamento com colegas de trabalho e vizinhos é excelente, mas minha relação com meu cônjuge é insustentável, o que posso esperar de minha vida?

Somos seres orgânicos, não apenas nas relações entre nossos órgãos e suas funções vitais, mas também nas diferentes áreas de nossa vida. Imaginemos uma pessoa que tem um excelente par de rins, um coração bastante saudável, um cérebro que nunca dá "dores de cabeça", contudo, tem seus pulmões comprometidos e acaba vindo a óbito com isso. Lá se foi, junto com a insustentabilidade dos pulmões, toda a sustentabilidade do coração, rins e cérebro. Assim somos também em nossas dimensões da vida. Esteja uma dimensão aquém de conseguir sustentar-se e todo o conjunto dessa bela obra chamada VIDA estará comprometido, seja em qualidade, seja em existência.

Costumamos ouvir seguidamente que nascemos para sermos felizes, e isso é fato. A questão é que não podemos perder de vista que essa felicidade precisa necessariamente ser sustentável e não momentânea, a fim de não comprometer o girar contínuo e seguro da Roda de nossa Vida.

Que o novo ano que vem se anunciando nos inspire à sustentabilidade e integração em todas as áreas de nossa vida e que, cada um de nós no seu tempo, faça do equilíbrio o ponto de partida para as ações que nos trarão a felicidade. Não a momentânea, mas a construída para durar o maior tempo possível.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli


quinta-feira, 8 de novembro de 2018

D.R.

A famosa D.R. (discussão de relacionamento) está virando sinônimo de chateação, de momento negativo, de que as coisas não vão bem na relação entre pessoas, seja no âmbito conjugal, familiar ou até mesmo profissional. Tanto isso é presente que a própria palavra feedback já parece encaminhar para uma conversa onde coisas que não queremos ouvir virão à tona, de modo que conotamos negativamente.

Quantas vezes evitamos as D.R.s e preferimos calar, empurrando para a frente ou varrendo para debaixo do tapete de nosso inconsciente pequenas mágoas, ressentimentos aparentemente inofensivos, desconfortos psíquicos, acumulando vagarosa e imperceptivelmente um verdadeiro monte de lixo tóxico, tudo isso em nome do bem estar da relação. Porém, podemos demorar para perceber que o bem estar da relação depende do bem estar de todas as suas partes. Com isso, se chega ao resultado contrário: ao invés de proteger a relação, a expomos à negligência em não lhe darmos a manutenção necessária, os pequenos ajustes que todas as coisas de tempos em tempos precisam, o alinhamento que sintoniza projetos de vida com uma visão de futuro, o reconhecimento de expectativas em relação às perspectivas.

Nesse contexto, será que uma D.R. é realmente tão amedrontadora assim?

E se for exatamente uma cultura de D.R. que esteja fazendo falta em sua relação?

Em âmbito profissional, o mesmo acontece. Quando surge o termo feedback, a tendência atual é que serão levantados assuntos onde não estamos indo bem. Mesmo que assim fosse, porque não exercemos a escuta ativa e procuramos receber o que a outra parte nos traz como material de reflexão, antes de sermos reativos e construirmos muros em nossa comunicação?

Se pararmos para pensar, absolutamente tudo em nossa vida é feedback. A forma que agimos, que pensamos, que sentimos, tudo isso nos dá constante retorno. Cabe a cada um de nós observar quais estão sendo esses retornos, se eles estão sendo os esperados, ou se estão nos distanciando da vida que almejamos. Taxar feedbacks como "positivos" ou "negativos", nesse contexto, não parece fazer muito sentido: ou temos o feedback de seguir como estamos, ou aprendemos uma forma que precisamos mudar.

Tudo é uma questão de transparência e equilíbrio. Uma máquina que precisa de manutenção todo dia pode estar prestes a pifar de vez. Uma máquina que nunca recebe manutenção pode estar na mesma situação. Relacionamentos que precisam de D.R.s constantes, ou que nunca precisam, podem estar vulneráveis.

Em qualquer conjuntura, harmonizar as relações evita o que de pior pode acontecer, que é uma ou todas as partes dedicarem apenas indiferença uns aos outros. Conhecemos nossas necessidades, anseios, medos e expectativas. Antes de imaginar quais são as do outro, cabe, de tempos em tempos, de modo tranquilo, reconhecer e ter clareza e transparência sobre as necessidades do outro, também.

Discutir é debater, não é brigar. Relacionamento é conviver com o outro, não é tentar vencê-lo. "Diálogo" é uma palavra que tem em sua raiz o "di" de duplo, de duas pessoas participando. Uma relação sadia entre pessoas só pode ser uma em que todos os envolvidos ganham juntos. 

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

A vida é sobre andar de bicicleta

Você lembra quando ganhou sua primeira bicicleta? Lembra da expectativa, do tempo que precisou esperar, da incerteza se ganharia ou não?

Caso tenha tido esse momento em sua infância, procure lembrar-se dele. Da ocasião, da sua emoção, das pessoas que estavam ao redor, das cores, dos cheiros, dos sons... reviva esse momento!

Depois, você criou coragem para subir na bicicleta. Provavelmente, ela tinha rodinhas, e você só conseguia ir para a frente, e a balançava de um lado para o outro confiando nas rodinhas! Aos poucos, foi atrevendo-se a fazer curvas, foi percebendo o quanto o guidom precisava e podia ser movimentado para não cair e fazer a curva perfeitamente. Foi desenvolvendo equilíbrio suficiente para não encostar mais as rodinhas no chão, desafiando-se a ir o mais longe possível sem ouvir o som delas girando. 

Então, chega o dia que você vê sua bicicleta sem rodinhas.

Você já é capaz de andar sem rodinhas, mas a simples lembrança que não as tem causa desequilíbrio e assim, vem um tombo. Levanta, afinal, sempre te disseram que cair de uma bicicleta é parte do aprendizado, para logo cair de novo. E de novo. As cicatrizes, arranhões e ferimentos vão se tornando parte de sua rotina, até um momento que esse aprendizado está deixando de ser divertido. Joelhos, cotovelos, canelas, costas, seu corpo está cheio de escalavrões. 

Aí também você percebe que, mesmo com muitas feridas pelo corpo, elas têm o seu tempo, e vão cicatrizando. E você percebe que cada vez mais seu equilíbrio torna-se melhor, assim como suas pedaladas vão ficando mais firmes. Cada vez mais equilíbrio, e mais atitude.

Chego à conclusão que a vida é sobre andar de bicicleta. É viver a emoção dos nossos melhores momentos como se fôssemos aquela criança que ganhou sua primeira bicicleta. É ser humilde o suficiente para aceitarmos as rodinhas, sabendo que elas serão apenas amigas temporárias em nossa evolução. É ousar, fazer curvas e manobras as quais não estamos muito certos do desfecho, mas sempre aprender com essa ousadia. É inevitavelmente cair, e ao cair, não pensar muito, montar de novo e sair pedalando antes que o medo que nosso ego nos oferecerá tome conta de nós. É entender que andar de bicicleta requer equilíbrio, assim como fazemos ao identificar e gerenciar nossas emoções, e também atitude, pois sem atitudes, não evoluímos na vida, nem geramos pedaladas para nos mantermos em pé.

Essa criança corajosa que um dia você foi está aí dentro, ainda. Pode até não ter sido de bicicleta, mas se você levantou de todos os tombos que você tomou até hoje da vida, agradeça àquela criança. Ela nunca desistiu de você.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli




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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Admiráveis comportamentos novos

"Pane no sistema, alguém me desconfigurou/Aonde estão meus olhos de robô?/Eu não sabia, eu não tinha percebido/Eu sempre achei que era vivo/Parafuso e fluido em lugar de articulação/Até achava que aqui batia um coração/Nada é orgânico, é tudo programado/E eu achando que tinha me libertado/
Mas lá vêm eles novamente, eu sei o que vão fazer/Reinstalar o sistema"

Assim é a letra da música "Admirável Chip Novo", da cantora Pitty. O robô acha que é um ser vivo, mas na verdade, ele é apenas manipulado por um sistema programado. E assim como ele, nós também.

O resultado final dessa manipulação se apresenta em forma de atitudes e comportamentos. O que fazemos, como reagimos, como lidamos com as situações do dia-a-dia, como nos relacionamos, tudo isso está relacionado a significados que vamos dando ao mundo ao longo a vida. E isso inclui os comportamentos dos quais costumamos nos arrepender, que nos sabotam e que nos limitam.

"Pense, fale, compre, beba/Leia, vote, não se esqueça/Use, seja, ouça, diga/Tenha, more, gaste, viva"

Dentro dos estudos da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), nossas atitudes e comportamentos provêm de emoções, que são geradas por pensamentos, os quais são oriundos de nossos esquemas cognitivos ou crenças, como mais comumente se chamam. Como Coach alinhado à adaptação da TCC aos casos não-clínicos, o Coaching Cognitivo-Comportamental presencia essa realidade diariamente. Os comportamentos que temos tendem a vir de pensamentos automáticos, impregnados de emoção, e seguramente amparados na visão de mundo mais perfeita que cada um de nós conseguiu montar. E essa visão de mundo é como um verdadeiro iceberg, o qual só racionalizamos uma pequena parte. É a maior parte, submersa, obscura e desconhecida quem te manipula na maior parte do tempo.

Mudar comportamentos a partir dos próprios comportamentos é a mesma coisa que podar os galhos mais superficiais e as folhas de uma árvore. Enquanto a raiz estiver lá, os velhos padrões de comportamento voltarão. Isso porque a programação de uma árvore é funcionar assim. E de nossos comportamentos também.

Na letra da Pitty, a primeira mudança  que o robô teve de verdade foi perceber que ele não era um ser vivo, adquirindo a consciência de que ele era mesmo um robô. Confesso que no meu próprio processo de Coaching essa descoberta foi muito dolorosa. Descobrir que somos manipulados por crenças que nos impulsionam a comportamentos maléficos e limitantes pode ser chocante. Nossa primeira reação é a de resistir. Assim, aquilo de comportamento que está nos prejudicando precisa ser trabalhado a partir dos esquemas cognitivos, despertar para quais os pensamentos e quais emoções amparam esses esquemas para, por fim, chegar a fazer diferente.

Ou nos damos conta de nossos comportamentos e atitudes limitantes de uma vez, ou ficamos à mercê dessa manipulação, a qual somos vulneráveis enquanto não entendermos nosso próprio funcionamento.

"Mas lá vem eles novamente, eu sei o que vão fazer/Reinstalar o sistema".

Os sistemas estão no ar, nos nossos significados da infância, na rua, nas redes sociais, na TV, na família, no casamento. Ou você os escolhe, ou eles serão instalados sem sua permissão. Ou você programa suas atitudes para que se alinhem à felicidade, equilíbrio e plenitude, ou o mundo se encarregará de fazer isso de qualquer jeito. E aí, seus comportamentos, que aparentemente são unicamente seus, estarão, na verdade, fora de seu controle.



Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Debaixo do seu nariz

Temos pontos cegos em nosso corpo. Um deles é exatamente a dificuldade de enxergar o que está debaixo do nosso nariz.  

Só há duas formas de sabermos o que está debaixo do nosso nariz: ou nos olhamos no espelho, ou perguntamos a alguém de confiança. Em ambos os casos, precisaremos do outro, seja ele outra pessoa, seja nosso "outro" refletido no espelho.

Encarar a própria imagem no espelho é uma tarefa desafiadora. Essa imagem pode revelar detalhes de nossa feição que preferiríamos evitar. Olheiras de preocupações. Linhas de expressão que o tempo vai inexoravelmente talhando. Cicatrizes contadoras de histórias. Traços considerados por nós como imperfeitos. Tudo isso é percebido, dimensionado e convertido em informação, mesmo quando só o que estávamos procurando era o que estava debaixo de nosso nariz.

Jean-Paul Satre, um dos filósofos ícones do existencialismo, cunhou a frase "o inferno são os outros". Sim, pois uma das interpretações dessa frase é fazer com que justamente nosso olhar para o espelho, antes que busquemos o que está debaixo do nosso nariz, passe por uma comparação com os outros. Vêm à consciência nossas fraquezas e forças. Erros e acertos. Possibilidades e necessidades. Vêm à luz o que sentimos como ameaça e o que nos potencializa. No fim das contas, é na existência do outro que acabo tendo consciência do meu eu. 

E eu só queria saber o que está debaixo do meu nariz.

Assim, o caminho mais rápido é pedir ajuda para o outro, pois é no outro que existe a possibilidade de uma consciência auxiliar àquilo que não estou conseguindo perceber. Pelo seu lugar no mundo, o olhar do outro é mais abrangente, podendo mirar apenas no essencial ponto cego debaixo do nosso nariz antes de nos encararmos no espelho para finalmente enxergar o que está lá há muito tempo e não nos dávamos conta. 

Isso porque também temos pontos cegos em nossa alma.

É desnecessário citar o número de fatos calamitosos que poderiam ter sido evitados se as pessoas tivessem pedido ajuda. Ficamos tanto tempo no espelho olhando para nosso rosto com o olhar absorto em detalhes irrelevantes de autocomiseração ou autoafirmação que as respostas necessárias acabam ficando submersas, em segundo plano. É no outro que está a possibilidade dessas respostas virem à tona, não porque o outro tenha essas respostas, mas sim, por ter outras perguntas as quais ainda não nos fizemos. 

O equilíbrio emocional necessário para seguirmos pelos nossos dias, quando perdido, só será percebido quando possivelmente já estivermos bem distanciados de nossa rota desejada. Nesses momentos, uma mão de amparo pode te reequilibrar sem que isso vire mais uma cicatriz em nossa face, pois atuaremos antes que essa cicatriz seja causada ou tome proporções maiores ou até incuráveis.

De uma forma ou de outra, todos nós precisamos do outro. Não para nos compararmos, mas para efetivamente temos claro o que está debaixo do nosso nariz. Pode haver momentos em que será necessária a luz do outro para iluminar nossas sombras. Pode haver momentos que a vida vai nos desafiar a procurar ajuda, não para provar que somos incapazes, mas para nos mostrar que, uma vez capazes de encararmos o espelho com profundidade, possamos enxergar um ser humano vencedor de seu próprio orgulho e de seu próprio ego e que, por isso, tornou-se melhor. Se for assim mesmo, então eu diria que, no fundo, "o céu são os outros".

O que pode estar em algum ponto cego do seu ser arruinando a vida mais plena e desejada por ti?

Consegue me dizer o que é isso que está debaixo do seu nariz?


Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli



sábado, 8 de setembro de 2018

O iogurte aberto no supermercado

Um dia antes de escrever esse texto, presenciei a cena que vou contar.

Estava eu na fila do pão, em um supermercado, pensando em pegar os pães e já partir para o próximo item da lista de compras, até que me chama a atenção uma jovem família vindo em minha direção. Acredito que fosse um pai, uma mãe e uma criança, um menino de uns 4 ou 5 anos, sentado na cadeirinha do carrinho. Fiquei olhando para eles, sem razão aparente.

O pai puxa de dentro do carrinho deles um conjunto de iogurtes que vêm em garrafinhas, e oferece ao menino. "Quer um? O pai abre para ti!" Obviamente, a criança, que estava tranquila no carrinho leva as duas mãozinhas em direção ao pai, que lhe dá o iogurte. Mas o trabalho do pai ainda não tinha terminado. "Abre um para mim, também?" Pede a mãe.

E a vida seguiu normal. A minha, daquele pai e daquela mãe. Mas daquela criança não. Ela seguiu por outro caminho, imprevisível.

Não tenho nenhuma dúvida da boa e amorosa intenção do pai em sua atitude. Dar aos filhos tudo aquilo que podemos talvez seja a plenitude parental, e ele está procurando ser o melhor pai dentro de suas possibilidades. Só que de boas intenções, as crenças limitantes estão cheias.

Muito antes de me meter na vida dos outros, de julgar o que é certo ou errado, muito antes de entrar no mérito que o iogurte seria pago de qualquer forma, muito antes de lançar mão de leis do consumidor, regras de estabelecimentos comerciais, sem nem ao menos apelar para o bom senso que difere um supermercado de uma lancheria, meu foco é aquele menino. O que esta corriqueira experiência pode lhe trazer de consequências no futuro?

Uma criança passa praticamente seus sete primeiros anos de vida dando significado a tudo que a rodeia. Em grande parte, esses significados se cristalizam para que a sequência da vida seja possível, quando a socialização com outras crianças, professores e familiares se avolumar e ser fator decisivo nas próximas fases de desenvolvimento daquele serzinho em formação. Reflita sobre esse enorme desafio que uma criança tem pela frente. Nós, como adultos, já passamos por esse desafio, e até hoje nosso software mental roda esquemas que vêm lá de nossa primeira infância.

Agora, o computadorzinho daquele menino recebeu novos significados. Algo talvez como "posso comer iogurte quando eu quiser, onde eu quiser. Não preciso esperar. E nem minha mãe!" 

Nos compêndios de comportamento humano, é bastante conhecida a experiência chamada "Experimento do Marshmallow", do final dos anos 60 e liderada pelo professor Walter Mischel na Universidade de Standford, nos Estados Unidos. A experiência consistia em colocar uma criança em uma sala, sentada à frente de um bolinho ou marshmallow. O cientista dizia à criança que ela podia comer a guloseima se quisesse. Porém, ele iria sair da sala, e se quando voltasse uns 15 minutos depois, a criança tivessse conseguido resistir em comer o doce, ganharia outro como recompensa. Das 600 crianças testadas, um terço delas conseguiu a recompensa. Essas crianças seguiram tendo suas vidas monitoradas, com resultados surpreendentes. Esse um terço que resistiu ao impulso de comer o doce apresentou médias muito superiores em relação aos outros dois terços em testes de competências e comportamentos na adolescência, além de maiores níveis salariais quando chegaram na vida adulta. Posteriormente, em 2012, novas experiências do gênero levantaram dados ainda mais relevantes, como o desenvolvimento de geração de senso estratégico de autocontrole perante determinadas situações futuras ligadas à confiança.

Será que o estímulo ao autocontrole na infância em não consumir algo que ainda não é seu poderia evitar um adulto com problemas em seu cartão de crédito? Será que uma criança que em seu próprio tempo vai manejando suas pequenas frustrações poderá ser um adulto mais preparado para possíveis grandes frustrações? Será que uma criança que recebe ajuda para conhecer limites comportamentais terá mais consciência de suas capacidades no futuro?

Será que é através dos limites que temos a chance de sermos ilimitados?

Os bebês precisam ser amamentados em qualquer lugar por essa ser uma necessidade física e mental dessa fase, para o seu bem futuro. Da mesma forma, podemos nos perguntar a cada atitude com as crianças: "qual é a sua necessidade física e mental dessa fase, para seu bem futuro?"

Dez minutos depois, eu estava no caixa. E a família com o menino coincidentemente vem logo atrás de mim. Apenas 10 minutos.

Que os pequenos tenham chances de desenvolver seu senso de resiliência com pequenos "nãos" sempre que necessário. Não para torná-los amedrontados e rebeldes, muito pelo contrário, para construírem aos poucos seu coeficiente de inteligência emocional de forma saudável e carinhosa sob o manto protetor dos adultos.

Porque amar é educar. Em todos os momentos. Em todos os lugares. Até mesmo no supermercado.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli





sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O desafio do choque

Não sei se a história é verídica, mas a sua lembrança me serviu muitas vezes pela vida. Quando eu cheguei na adolescência, alguns de meus amigos começaram a buscar um encaminhamento profissional. Muitos deles foram buscar conhecimentos na eletrônica, nos cursos profissionalizantes da época. Esses meus amigos que foram para o lado da eletricidade me diziam que uma das primeiras atividades práticas do curso era aprender a levar choques. Isso mesmo. Para lidar com a eletricidade, precisavam aprender a administrar o medo. Havia uma máquina em que se encostava a mão, e se levava um choque com uma voltagem quase imperceptível, e que ia, pouco a pouco, sendo aumentada, até o ponto onde o aluno suportasse e que não corresse riscos. 

Lenda ou não, essa imagem nunca me saiu da cabeça. E me serve hoje como uma analogia aos "choques" que vamos levando ao longo da vida: alguns mais leves, outros mais fortes, suportá-los ou não nem sempre depende de um exercício automático de vontade. Pode ser que o choque seja tão grande de nos faça reagir com um impulso de fuga, a partir do reflexo de nossa própria autopreservação. Como na simulação da máquina de choques, cada um de nós tem um limite de tolerância. Só que a vida é uma prova real.  Depois do impacto, o que nos resta  é  respirar e colocar novamente nossa mão no choque, até que o exercício acabe. O aprendizado disso é o desenvolvimento da RESILIÊNCIA.

Resiliência não quer dizer que não seremos "amassados" por algumas situações, mas sim, que depois de amassados, possamos voltar a nossa forma original o mais rápido que nos for possível. Em nossos dias, ser positivo virou quase um sinônimo de retidão moral, o que pode transformar uma pretensa positividade em uma tirana cruel, de quem esperamos "dias melhores" que poderão nunca chegar da forma como os imaginamos. A melhor dimensão da positividade é aquela que gera ATITUDES POSITIVAS, ressignificações capazes de desenvolver na pessoa uma cultura emocional que a torne hábil em reconhecer com clareza o que está sentindo, e como decide se comportar a partir daquele reconhecimento.

Somos seres movidos pelas emoções. É a partir delas que tomamos atitudes e delineamos comportamentos, utilizando nosso intelecto para justificar tais comportamentos. Negar emoções que causam desconforto vai apenas torná-las mais fortes, pois todas as emoções nos alavancam ou protegem de algo. Assim, desejar "não sentir" é algo inalcançável aos vivos, como nós. O melhor que podemos desejar é a capacidade de administrarmos essas forças e as utilizarmos, aí sim, positivamente.

Resiliência e positividade são quase duas palavras gêmeas dentro de uma cultura emocional. Ambas tratam genuinamente da capacidade de levarmos os choques e  conseguir decidir o que fazermos com eles. Sentir os golpes desses choques é humano. Sacudirmos a poeira e vencermos o desafio do choque também.



Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli     




quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Seja um hacker

O que eu mais poderia desejar ao leitor desse texto é que ele desenvolvesse as atitudes de um hacker

Antes de mais nada, é preciso diferenciar um hacker de um cracker. Ambos são termos originários dos sistemas de informática, mas é o cracker aquele invade sistemas de forma ilícita, buscando lucrar ao máximo com o prejuízo alheio. Já o hacker é aquele que invade sistemas com o intuito de apontar falhas nesse sistema, de modo a expor onde a segurança ou acessibilidade daquele software deve ser melhorado exatamente para evitar erros ou a ação de crackers. Tanto isso é verdade que instituições ao redor do mundo têm promovido concursos com altas premiações para hackers que forem capazes de invadir seus sistemas e apontar falhas, abrindo a possibilidade de aperfeiçoamento do todo.

Só aquele que reconhece suas deficiências pode melhorar. Uma incompetência consciente pode tornar-se uma competência. Uma incompetência inconsciente será sempre ela mesma.

Querendo ou não, nós mesmos somos sistemas. Nosso todo é um sistema. Fazem parte desse sistema nosso corpo físico, nossos esquemas cognitivos, nossas emoções, comportamentos e atitudes. Esse nosso "eu sistema" interage o tempo todo com outros sistemas, como outras pessoas, trabalho, família e instituições. Nessas interações, nosso sistema vai utilizando seus próprios recursos para montar um verdadeiro banco de dados que determinará a sua "programação". A questão é: esse banco de dados de nosso software está nos levando para onde?

A tendência desse sistema é a acomodação. É viver o dia-a-dia com base no banco de dados pré-existente. A divergência é que essa acomodação ao longo do tempo pode deixar de ser "cômoda", e acabe mais nos distanciando dos nossos objetivos do que, de fato, nos aproximando deles.

Chega o momento de ser um hacker. De si mesmo.

Ter curiosidade para observar, experimentar e executar novas pequenas ações que podemos ter todos os dias com o intuito de encontrar novas possibilidades. Dessas ações, armazenar os novos aprendizados, lapidando os esquemas mentais de modo que se tornem mais potencializadores do que limitantes em nossas vidas. Testar um "padrão novo" com o cuidado de não "bugar" o sistema, de maneira firme e inteligente, para observar e colher resultados. 

"Hackeie" seus processos como você já os conhece. O que pode aperfeiçoar a experiência de seu próprio sistema? Quais são outros modos de execução de tarefas?  Hackeie relacionamentos, desenvolvendo mecanismos de aproximação e de distanciamento de acordo com a compatibilidade de seus sistemas, mantendo-se sempre aberto para aprender com todos. Hackeie sua comunicação, tornando sua escuta  mais empática e sua fala mais assertiva. Hackeie suas emoções, não fingindo que elas não existem, mas ressignificando aquelas que te paralisam. 

Ainda assim, nossos sistemas existem e co-existem no arcabouço da natureza probabilística da vida. O fluxo de acontecimentos, tal qual o alinhamento de diversos comandos de programação, muitas vezes invisíveis, desencadeia ocorrências independentes de nossas vontades. Não temos controle direto sobre acidentes, sobre nossos batimentos cardíacos, sobre nossa idade, sobre se vai ou não chover amanhã. O que podemos mesmo hackear é aquilo que está sobre o nosso controle: qual a melhor forma de agir, uma vez que o acidente já aconteceu, como tornar meus batimentos cardíacos mais saudáveis, como viver com a maior plenitude possível a minha idade e praticar uma fé emocionada que o tempo será aquele que eu espero amanhã. 

Descubra as falhas e inseguranças de seu sistema, e trabalhe nelas como um hacker. Não será nenhuma instituição ao redor do mundo que o premiará. Será o seu próprio sistema aperfeiçoado que fará isso.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli





terça-feira, 24 de julho de 2018

Eu queria que não existisse Coaching

Eu queria que não existisse Coaching. Porque Coaching só existe pela necessidade de expandir nossa consciência com relação as nossas luzes e sombras, para seguirmos com firmeza nosso caminho em direção a onde queremos chegar. 

E eu queria que isso fosse mais fácil.

Queria que desde cedo em nossas vidas tivéssemos bem claros nossos objetivos e metas, e que soubéssemos como alcançá-los. Que fôssemos capazes de analisar e planejar as melhores formas de que nossos objetivos saíssem do campo dos sonhos e se transformassem em ação efetiva.

Queria que tivéssemos de antemão a consciência de quantas dimensões nossa vida é composta, e que o desequilíbrio em uma dessas dimensões pode colocar a perder a qualidade de outras. Que´pudéssemos saber com precisão onde nossa vida pode melhorar, o que pode e precisa ser feito, e qual o impacto dessa melhora no todo de nossa existência. 

Queria que conhecêssemos nossos esquemas cognitivos inconscientes, nossos softwares mentais que um dia foram instalados e nem sabemos. Prova disso é que muitos de nossos conceitos e  opiniões nem temos ideia de onde vêm. Que aprendêssemos que são essas crenças que nos movem a ter emoções, comportamentos e ações. Que são esses softwares que nos dizem quem somos, do que somos capazes, quais são nossos valores, sobre o que é o amor, o dinheiro, a felicidade, o merecimento, a plenitude, a conquista.

Queria que a nós fossem claros os porquês de nossas autossabotagens, porque tantas vezes nós mesmos somos os responsáveis por não alcançar objetivos que estavam tão próximos, mas que abrimos mão em nome de ganhos secundários que, por fim, nos causaram apenas infelicidade.

Queria que nos casos de indecisão fôssemos capazes de pesar as perdas e os ganhos, administrar bem nossas forças, trabalhar nossas fraquezas, e optar pelas melhores soluções a partir de uma consciência ampliada.

Enfim, queria que "viéssemos de fábrica" com esse conhecimento e com essas habilidades, ou, pelo menos, que não as fôssemos perdendo de forma silenciosa e contínua pelo caminho. Somos, como pessoas do século XXI, o produto mais avançado que nossa raça já conseguiu criar, embora originários de uma matriz primária de autopreservação capaz de dominar e limitar a nós mesmos e aos outros, através da força e da própria linguagem. 

Eu queria que não precisasse existir o Coaching. E ainda bem que existe. 

Que o Coaching seja uma possibilidade de nos libertar da caverna platônica onde podemos estar vivendo em uma realidade limitada,  e nos instrumentalize, através do autoconhecimento, a viver a vida mais plena que nos seja possível.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli
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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Gestão de conflitos no trabalho: "se queres a paz, prepara-te para a guerra"

Se levarmos em consideração que a história identifica apenas 286 anos de paz nos últimos 3500 da humanidade, o conflito parece ser, inevitavelmente, parte da psique humana. E, mais do que os danos causados por conflitos mal administrados, os efeitos colaterais são sentimentos como remorso, intolerância, medo e desejo de vingança. Como nossas ações provêm de nossos sentimentos, podemos começar a calcular o efeito devastador que a falta de administração dos choques das necessidades humanas podem ter em nossas vidas.

Sim, porque apesar de ser representado das mais diferentes formas, um conflito é um choque de necessidades, que pode ocorrer entre indivíduos, entre grupos ou até entre países. Os interesses próprios, quando pressentem que podem ser afetados negativamente por outra parte, reagem baseados nos mapas mentais das pessoas. E algo inato no ser humano é a reação dicotômica do "lutar ou fugir", ou seja, ou ataca-se a causa do obstáculo à obtenção do que é de interesse, ou desiste-se, abafando e suprimindo objetivos e aspirações. Ainda bem que o estudo da Gestão de Conflitos avançou muito nas últimas décadas, o que nos instrumentaliza para lidarmos com situações de impasse da maneira mais eficaz possível.

Uma empresa pode ser a organização social mais propícia para o aparecimento de conflitos. Obviamente, vivenciamos conflitos na vida pessoal também, com uma diferença: as relações pessoais são mais permeáveis à emotividade (tanto para o bem quanto para o mal), o que faz com que, apesar de mais intensos, esses conflitos tenham uma possibilidade e um desejo de resolução mais genuíno. Em uma empresa, onde, apesar do convívio diário com colegas e chefes, somos influenciados por outros fatores como cultura e clima organizacional, o principal motivo de estarmos lá é para suprirmos necessidades, que vão desde as mais básicas, como suporte financeiro, até as mais elevadas, como a necessidade de autorrealização. O elemento emocional direciona seu vetor para a sobrevivência, para a parte do nosso cérebro responsável por posicionar a chave em "lutar" ou "fugir". Com isso, a as técnicas empregadas na Gestão de Conflitos dependerão muito do nível de inteligência emocional dos envolvidos. Daí, a necessidade do conhecimento mais aprofundado no tema. 

Mesmo que o termo "conflito" carregue uma conotação negativa, as práticas de Gestão de Conflitos atuais já são capazes de processar o que há de positivo em uma contenda, de modo a estimular não que sejam evitados, mas sim, que sejam vivenciados da maneira mais proveitosa. Para isso, alguns cuidados fundamentais são, por exemplo, o de manter o conflito no campo das ideias, de modo que não avancem para o campo dos valores pessoais. O gestor de conflitos precisa ter uma visão macro da situação, assim como deixar claras as intenções por trás de um desentendimento, sendo firme com o problema a ser resolvido em si, e não necessariamente com as pessoas. O ápice da prática da Gestão de Conflitos está na transformação de um conflito disfuncional (que causa rupturas e sérias consequências à empresa) em um conflito funcional (capaz de desenvolver a capacidade intelectual e a mudança positiva dos envolvidos e do ambiente).

Um profissional ou uma empresa que não gerencie seus conflitos está rolando com uma bola de neve morro abaixo. Mais cedo ou mais tarde, não haverá mais controle. Algumas consequências da falta de controle sobre os conflitos são a perda de produtividade, queda de moral, quebra de regulamentos e a perda de sinergia nas equipes, fatos que geram altos custos à empresa. O aperfeiçoamento da Gestão de Conflitos oportuniza a criação de situações ganha-ganha, onde descobrem-se espaços para negociação e concordância onde parecia não haver nenhum, através de estímulos à criatividade e sofisticação dos processos comunicativos.

Quantas contratações já foram feitas por necessidades técnicas e acabaram em demissões por deficiências comportamentais? Já que viver conflitos parece mesmo ser inevitável, busquemos a paz resolvendo primeiramente nossos próprios conflitos interiores, para sermos profissionais capazes de vencer as guerras diárias com a arma mais poderosa que o ser humano tem: a própria inteligência, em suas mais sutis nuanças. É ela que, apesar de tanta guerra, vem nos mantendo nesse mundo por milênios.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli


domingo, 24 de junho de 2018

Desconstruindo seu Templo

Existe no Japão, na localidade de Ise, um conjunto de templos chamado Ise Jingu. Com mais de 1500 anos de existência, esse conjunto de templos poderia ser apenas mais um dentro do grande número de templos existem no Japão, não fosse por uma característica impressionante: a cada vinte anos, todos os templos são desmontados, e novos templos são construídos em seu lugar. Segundo a tradição do templo, essa prática faz com que a as instalações dos templos estejam sempre firmes e renovadas, e que as novas gerações tenham a possibilidade de aprender na prática as técnicas ímpares de construção dos templos.

No Coaching, ocorre algo parecido. Nossos comportamentos são determinados pelos nossos sentimentos que, por sua vez, são originados e nomeados a partir de nossos esquemas cognitivos, as famosas "crenças", significados que vamos dando ao mundo desde a nossa primeira infância e que vão ficando em nossa psique ao longo da vida. Assim, são em nossas próprias crenças onde estão as raízes mais profundas que sustentam nossos comportamentos e que, em grande parte das vezes, nos levam aos nossos resultados. O Coaching trabalhará com essas crenças, as quais, muitas vezes estão em nível inconsciente, não de forma a invalidá-las ou sugerir que elas estejam erradas, mas sim, com o intuito de descobrir esquemas cognitivos que até podem ter sido importantes no passado, mas que já não nos trazem mais nenhum benefício, e construir, no lugar dessas crenças, esquemas cognitivos mais alinhados com as nossas metas e objetivos baseados no agora, e com vistas as suas realizações no futuro.

No fim das contas, apesar da impactante imagem que me vem à cabeça, de pensar que em 2013 os templos de Ise Jingu passaram por sua 62a. reformulação, ainda essa desconstrução e reconstrução me parece ser menos complexa do que a desconstrução e a reconstrução de uma crença. Essa é uma reformulação que só pode acontecer pelo "lado de dentro" de um ser humano, de uma forma que os sentidos que a vida tem estejam conectados com a "realidade" daquela própria pessoa. Para isso, é necessário, de tempos é tempos, olhar para nós mesmos, perceber o que está indo bem e o que não está, ter clareza sobre onde queremos chegar e, com espírito de desapego, reformular e renovar nossos esquemas, de modo que nos tragam benefícios e a plenitude desejada. 

Imagine-se sendo um templo de Ise Jungu. Imagine-se deixando ir e desconstruindo pensamentos e padrões que já serviram, mas que não servem mais na vida e nos objetivos de hoje, e reconstruindo em seu lugar pensamentos e assunções mais alinhadas com seus sonhos mais queridos. Imagine-se reforçado e revigorado para viver os próximos 20 anos. A primeira certeza que podemos ter é que será um processo que nos causará dor, pois perder o apoio sólido de algo que podemos tocar, para ir construindo outra coisa em seu lugar parece um trabalho angustiante e desnecessário. Porém, tomar a iniciativa de desconstruir e reconstruir algo consistente e ordenado pode ser muito mais eficiente do que vir a sofrer uma devastação a qual nosso templo não estava pronto e ter que reerguê-lo do zero.

Viver milhares de dias, ou viver o mesmo dia milhares de vezes é opção de cada um. O Coaching está aí para auxiliar na renovação de seu próprio templo.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli