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terça-feira, 24 de julho de 2018

Eu queria que não existisse Coaching

Eu queria que não existisse Coaching. Porque Coaching só existe pela necessidade de expandir nossa consciência com relação as nossas luzes e sombras, para seguirmos com firmeza nosso caminho em direção a onde queremos chegar. 

E eu queria que isso fosse mais fácil.

Queria que desde cedo em nossas vidas tivéssemos bem claros nossos objetivos e metas, e que soubéssemos como alcançá-los. Que fôssemos capazes de analisar e planejar as melhores formas de que nossos objetivos saíssem do campo dos sonhos e se transformassem em ação efetiva.

Queria que tivéssemos de antemão a consciência de quantas dimensões nossa vida é composta, e que o desequilíbrio em uma dessas dimensões pode colocar a perder a qualidade de outras. Que´pudéssemos saber com precisão onde nossa vida pode melhorar, o que pode e precisa ser feito, e qual o impacto dessa melhora no todo de nossa existência. 

Queria que conhecêssemos nossos esquemas cognitivos inconscientes, nossos softwares mentais que um dia foram instalados e nem sabemos. Prova disso é que muitos de nossos conceitos e  opiniões nem temos ideia de onde vêm. Que aprendêssemos que são essas crenças que nos movem a ter emoções, comportamentos e ações. Que são esses softwares que nos dizem quem somos, do que somos capazes, quais são nossos valores, sobre o que é o amor, o dinheiro, a felicidade, o merecimento, a plenitude, a conquista.

Queria que a nós fossem claros os porquês de nossas autossabotagens, porque tantas vezes nós mesmos somos os responsáveis por não alcançar objetivos que estavam tão próximos, mas que abrimos mão em nome de ganhos secundários que, por fim, nos causaram apenas infelicidade.

Queria que nos casos de indecisão fôssemos capazes de pesar as perdas e os ganhos, administrar bem nossas forças, trabalhar nossas fraquezas, e optar pelas melhores soluções a partir de uma consciência ampliada.

Enfim, queria que "viéssemos de fábrica" com esse conhecimento e com essas habilidades, ou, pelo menos, que não as fôssemos perdendo de forma silenciosa e contínua pelo caminho. Somos, como pessoas do século XXI, o produto mais avançado que nossa raça já conseguiu criar, embora originários de uma matriz primária de autopreservação capaz de dominar e limitar a nós mesmos e aos outros, através da força e da própria linguagem. 

Eu queria que não precisasse existir o Coaching. E ainda bem que existe. 

Que o Coaching seja uma possibilidade de nos libertar da caverna platônica onde podemos estar vivendo em uma realidade limitada,  e nos instrumentalize, através do autoconhecimento, a viver a vida mais plena que nos seja possível.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli
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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Gestão de conflitos no trabalho: "se queres a paz, prepara-te para a guerra"

Se levarmos em consideração que a história identifica apenas 286 anos de paz nos últimos 3500 da humanidade, o conflito parece ser, inevitavelmente, parte da psique humana. E, mais do que os danos causados por conflitos mal administrados, os efeitos colaterais são sentimentos como remorso, intolerância, medo e desejo de vingança. Como nossas ações provêm de nossos sentimentos, podemos começar a calcular o efeito devastador que a falta de administração dos choques das necessidades humanas podem ter em nossas vidas.

Sim, porque apesar de ser representado das mais diferentes formas, um conflito é um choque de necessidades, que pode ocorrer entre indivíduos, entre grupos ou até entre países. Os interesses próprios, quando pressentem que podem ser afetados negativamente por outra parte, reagem baseados nos mapas mentais das pessoas. E algo inato no ser humano é a reação dicotômica do "lutar ou fugir", ou seja, ou ataca-se a causa do obstáculo à obtenção do que é de interesse, ou desiste-se, abafando e suprimindo objetivos e aspirações. Ainda bem que o estudo da Gestão de Conflitos avançou muito nas últimas décadas, o que nos instrumentaliza para lidarmos com situações de impasse da maneira mais eficaz possível.

Uma empresa pode ser a organização social mais propícia para o aparecimento de conflitos. Obviamente, vivenciamos conflitos na vida pessoal também, com uma diferença: as relações pessoais são mais permeáveis à emotividade (tanto para o bem quanto para o mal), o que faz com que, apesar de mais intensos, esses conflitos tenham uma possibilidade e um desejo de resolução mais genuíno. Em uma empresa, onde, apesar do convívio diário com colegas e chefes, somos influenciados por outros fatores como cultura e clima organizacional, o principal motivo de estarmos lá é para suprirmos necessidades, que vão desde as mais básicas, como suporte financeiro, até as mais elevadas, como a necessidade de autorrealização. O elemento emocional direciona seu vetor para a sobrevivência, para a parte do nosso cérebro responsável por posicionar a chave em "lutar" ou "fugir". Com isso, a as técnicas empregadas na Gestão de Conflitos dependerão muito do nível de inteligência emocional dos envolvidos. Daí, a necessidade do conhecimento mais aprofundado no tema. 

Mesmo que o termo "conflito" carregue uma conotação negativa, as práticas de Gestão de Conflitos atuais já são capazes de processar o que há de positivo em uma contenda, de modo a estimular não que sejam evitados, mas sim, que sejam vivenciados da maneira mais proveitosa. Para isso, alguns cuidados fundamentais são, por exemplo, o de manter o conflito no campo das ideias, de modo que não avancem para o campo dos valores pessoais. O gestor de conflitos precisa ter uma visão macro da situação, assim como deixar claras as intenções por trás de um desentendimento, sendo firme com o problema a ser resolvido em si, e não necessariamente com as pessoas. O ápice da prática da Gestão de Conflitos está na transformação de um conflito disfuncional (que causa rupturas e sérias consequências à empresa) em um conflito funcional (capaz de desenvolver a capacidade intelectual e a mudança positiva dos envolvidos e do ambiente).

Um profissional ou uma empresa que não gerencie seus conflitos está rolando com uma bola de neve morro abaixo. Mais cedo ou mais tarde, não haverá mais controle. Algumas consequências da falta de controle sobre os conflitos são a perda de produtividade, queda de moral, quebra de regulamentos e a perda de sinergia nas equipes, fatos que geram altos custos à empresa. O aperfeiçoamento da Gestão de Conflitos oportuniza a criação de situações ganha-ganha, onde descobrem-se espaços para negociação e concordância onde parecia não haver nenhum, através de estímulos à criatividade e sofisticação dos processos comunicativos.

Quantas contratações já foram feitas por necessidades técnicas e acabaram em demissões por deficiências comportamentais? Já que viver conflitos parece mesmo ser inevitável, busquemos a paz resolvendo primeiramente nossos próprios conflitos interiores, para sermos profissionais capazes de vencer as guerras diárias com a arma mais poderosa que o ser humano tem: a própria inteligência, em suas mais sutis nuanças. É ela que, apesar de tanta guerra, vem nos mantendo nesse mundo por milênios.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli


domingo, 24 de junho de 2018

Desconstruindo seu Templo

Existe no Japão, na localidade de Ise, um conjunto de templos chamado Ise Jingu. Com mais de 1500 anos de existência, esse conjunto de templos poderia ser apenas mais um dentro do grande número de templos existem no Japão, não fosse por uma característica impressionante: a cada vinte anos, todos os templos são desmontados, e novos templos são construídos em seu lugar. Segundo a tradição do templo, essa prática faz com que a as instalações dos templos estejam sempre firmes e renovadas, e que as novas gerações tenham a possibilidade de aprender na prática as técnicas ímpares de construção dos templos.

No Coaching, ocorre algo parecido. Nossos comportamentos são determinados pelos nossos sentimentos que, por sua vez, são originados e nomeados a partir de nossos esquemas cognitivos, as famosas "crenças", significados que vamos dando ao mundo desde a nossa primeira infância e que vão ficando em nossa psique ao longo da vida. Assim, são em nossas próprias crenças onde estão as raízes mais profundas que sustentam nossos comportamentos e que, em grande parte das vezes, nos levam aos nossos resultados. O Coaching trabalhará com essas crenças, as quais, muitas vezes estão em nível inconsciente, não de forma a invalidá-las ou sugerir que elas estejam erradas, mas sim, com o intuito de descobrir esquemas cognitivos que até podem ter sido importantes no passado, mas que já não nos trazem mais nenhum benefício, e construir, no lugar dessas crenças, esquemas cognitivos mais alinhados com as nossas metas e objetivos baseados no agora, e com vistas as suas realizações no futuro.

No fim das contas, apesar da impactante imagem que me vem à cabeça, de pensar que em 2013 os templos de Ise Jingu passaram por sua 62a. reformulação, ainda essa desconstrução e reconstrução me parece ser menos complexa do que a desconstrução e a reconstrução de uma crença. Essa é uma reformulação que só pode acontecer pelo "lado de dentro" de um ser humano, de uma forma que os sentidos que a vida tem estejam conectados com a "realidade" daquela própria pessoa. Para isso, é necessário, de tempos é tempos, olhar para nós mesmos, perceber o que está indo bem e o que não está, ter clareza sobre onde queremos chegar e, com espírito de desapego, reformular e renovar nossos esquemas, de modo que nos tragam benefícios e a plenitude desejada. 

Imagine-se sendo um templo de Ise Jungu. Imagine-se deixando ir e desconstruindo pensamentos e padrões que já serviram, mas que não servem mais na vida e nos objetivos de hoje, e reconstruindo em seu lugar pensamentos e assunções mais alinhadas com seus sonhos mais queridos. Imagine-se reforçado e revigorado para viver os próximos 20 anos. A primeira certeza que podemos ter é que será um processo que nos causará dor, pois perder o apoio sólido de algo que podemos tocar, para ir construindo outra coisa em seu lugar parece um trabalho angustiante e desnecessário. Porém, tomar a iniciativa de desconstruir e reconstruir algo consistente e ordenado pode ser muito mais eficiente do que vir a sofrer uma devastação a qual nosso templo não estava pronto e ter que reerguê-lo do zero.

Viver milhares de dias, ou viver o mesmo dia milhares de vezes é opção de cada um. O Coaching está aí para auxiliar na renovação de seu próprio templo.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli




sexta-feira, 8 de junho de 2018

A criança de hoje e o profissional de amanhã


“A quarta revolução industrial não é definida por um conjunto de tecnologias emergentes em si mesmas, mas a transição em direção a novos sistemas que foram construídos sobre a infraestrutura da revolução digital. Estamos no limiar da era pós-digital."

Com essas palavras, Klaus Schwab, diretor executivo do Fórum Econômico Mundial, nos remete a uma perspectiva de futuro que já pode ser visto no horizonte: os novos sistemas citados passam por conceitos de minimização das necessidades de interação física, como, por exemplo, o já comum conceito wireless (sem fio). Um próximo passo que também já vivenciamos é o conceito do paperless (sem papel), já presente em muitas atividades. Avançamos para a prática do touchless (sem toques), onde robôs importarão e farão leitura de dados em tempo real. E não precisamos pensar em robôs humanoides. Serão robôs do tamanho do processador de um computador.

E veja-se que esses conceitos não são meras previsões: já são o amanhecer do presente.

Em um mundo onde robôs estão cada vez mais presentes nas atividades profissionais, onde a inteligência artificial consegue realizar todo e qualquer trabalho que apresente um mesmo padrão, qual será o cenário do mercado profissional para nossos filhos?

Orgulhar-se de que os pequenos são exímios usuários de nossos celulares é o bastante? 

Absurda, e absolutamente, não. 

Estima-se que, nos próximos 30 anos, parte significativa das habilidades mais desejadas no mundo profissional ainda nem são conhecidas. Nesse cenário, a criatividade humana mostra-se como o grande trunfo para o futuro. Habilidades tipicamente humanas como o autoconhecimento, gestão de emoções, resiliência, influência, flexibilidade cognitiva, poder de negociação e principalmente empatia serão os grandes desencadeadores de talentos em um mundo onde o padrão será totalmente robotizado. O grande diferencial do ser humano será exatamente ser humano. É imperioso tornar habitual às crianças de hoje momentos de aprendizagem e vivência que proporcionem o desenvolvimento de habilidades cognitivas e emocionais, de modo a fortalecer sua curiosidade natural e sua construção potencializadora de significados.

"O futuro do emprego será feito por vagas que não existem”, diz o CEO do Greenpeace David Ritter.

Dizem a nós, pais, para “pensarmos fora da caixa”. Acredito que todos nós nascemos “fora da caixa” e, aos poucos, vamos ficando cada vez mais limitados em termos de criatividade, por uma série de razões. Para nossos filhos, pensemos em formas de evitarmos que “desaprendam” o mínimo possível.

Que proporcionemos um grande repertório de conhecimentos e possibilidades aos nossos filhos. Que nossa casa seja um centro de estímulos de criatividade, desenvolvimento emocional e, principalmente, humanidade. Que não apenas nos limitemos a responder os seus “porquês”. Que os geremos cada vez mais!


Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli



quinta-feira, 24 de maio de 2018

Spoilers da vida

Imagine que sua vida fosse uma série de TV. Qual seria a temática dessa série, seu plot, seu enredo,  sua ambientação, seu figurino? Como seria a divisão das temporadas? Cada uma seria sobre um mês? Um semestre? Um ano? Seria uma mesma e única temporada?

Quem seriam os personagens principais? Qual seria a influência que esses personagens teriam sobre você, o personagem principal? Ou você seria personagem coadjuvante?

Qual seria o público que essa série atrairia? Mais infantil? Mais adolescente? Mais adulto?

Quais as reviravoltas que essa história poderia ter? O que seu personagem pode fazer para gerar ou conter essas reviravoltas? E o que não está absolutamente sob seu controle?

Sua série seria capaz de gerar spin-offs, histórias paralelas interconectadas à história principal, ou seria uma única sequência linear de acontecimentos encadeados no fluxo do tempo?

Imagine, agora, um crossover entre o você de agora e o você de alguns episódios ou temporadas passadas. Qual seria sua análise: esse personagem evoluiu ou regrediu em sua jornada? Em quê? Quanto? De que jeito?

E agora, imagine que alguém já assistiu os episódios e temporadas futuras de sua série, e viesse te contar. Imagine que você pudesse receber spoilers da vida. Quais seriam? Qual é a situação de seu personagem, no futuro, nos mais diversos campos da trama? Se o enredo de sua vida continuar como está, qual será o desfecho de sua história?

Com esses spoilers, qual seria a resenha que você escreveria sobre essa série? 

Estamos escrevendo e vivendo novos episódios todos os dias. Enfatizemos cada vez mais o que nossos personagens nessa série vêm fazendo e alcançando bons resultados, e imaginemos mudanças naquilo onde os resultados não estão sendo os esperados. Assim, a cada nova temporada, nossa história vai chegar cada vez mais próximo daquilo que nossos personagens, de verdade, almejam para alcançar o estado de vida mais pleno possível.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli



quarta-feira, 9 de maio de 2018

Motivação não é açúcar

O principal combustível de nosso corpo físico é o açúcar, em suas mais diferentes formas, seja sacarose, frutose, lactose, entre outros. É com essas substâncias que primordialmente o corpo gera energia para manter as funções vitais em equilíbrio. Você já passou pela experiência de ingerir algo doce, e sentir-se mais energizado, mais alerta, ou mesmo mais relaxado?

Tudo bem, sem que se perca de vista os riscos que corremos com o excesso de açúcar no sangue.

Vejo algo parecido acontecendo com o que se convencionou chamar de "motivação". Um elogio, um aumento salarial, uma palestra, um bom livro, um gesto de carinho... "estou muito motivado", parece ser uma frase proferida por alguém que recebeu uma hipotética descarga de açúcar em sua alma. Assim, da mesma forma que esse "açúcar" é o que mantém a energia, ela só terá efeito enquanto ainda estiver na "alma". E quando ela acabar? Buscaremos mais e mais? E se não encontrarmos mais?

Corremos o risco de nos tornarmos "viciados" nesse "açúcar da alma"?

Veja-se que "motivação" vem de "motivos". Seus motivos para viver são seus, e apenas seus. Não há nada externo que fará com que sua motivação para viver mude. Isso só pode ocorrer internamente. O que esse açúcar que o mundo exterior pode nos ofertar é outra coisa, chamada "inspiração", essa sim, uma verdadeira mensagem telepática que recebemos de fora e que é capaz de nos agitar, de nos eletrizar, de nos mover. Da mesma forma que, ao respirarmos, é o ato da inspiração o que traz ao corpo e à alma  o novo ar, e a qualidade desse ar será crucial para a qualidade de nossa vida. É no desvão do dia-a-dia que buscaremos a inspiração necessária para seguirmos em frente com energia. A inspiração é nosso real açúcar.

A motivação é diferente. Ela é intrínseca. Firme. Duradoura. Encontramos-na no lugar onde normalmente a procuramos por último: dentro de nós mesmos. "O que me dá motivos para seguir?" Meus sonhos? Meus valores? Minha família? Ou ainda, "o que me dá motivos para mudar?" Estou feliz com meus resultados ao longo da vida?

"O que me faz sair da cama hoje e ir realizar meus projetos?"

Que não nos falte inspiração. Lembremos que precisamos desse açúcar para viver. Para que a doçura da vida possa ser degustada. Busque inspiração com leituras, com treinamentos, com filmes, com a música, com a arte, com a contemplação, mas, acima de tudo, busque inspiração nas pessoas, e no tanto que têm a nos ensinar, no tanto de "açúcar" que têm a nos oferecer, e lhes seja sempre grato. Só que, da mesma forma que não é só de pão ( e seus carboidratos = açúcares) que se vive, não será só na inspiração que nos sustentaremos ao longo dos dias.  Haverá momentos que simplesmente esse açúcar estará em falta no mercado. Nesses momentos, e para sempre, é necessário buscar nossas motivações em nosso próprio silêncio. No entendimento de quem somos, na superação de carências emocionais, da ansiedade, do stress e da desesperança, que tanto prejudicam nossa compreensão. Na certeza de sabermos onde estamos e onde queremos chegar. Pois são nesses motivos que nossos projetos mais queridos estão verdadeiramente sustentados.  

Muita inspiração a você, querido leitor. E muita clareza na percepção de suas motivações durante essa jornada pela vida.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli


sábado, 21 de abril de 2018

Quando deixamos a creche

Acredite, querido leitor ou leitora, que não desejo que se sinta mal ou ofendido por sugerir que, em alguns aspectos, sejam grandes as chances de ainda estarmos agindo da mesma forma de quando éramos crianças.  Não é, de forma alguma, uma questão de imaturidade, até porque entendo que a maturidade não seja medida pelos anos que já vivemos, mas sim, pelo quanto de responsabilidade pela nossa vida assumimos. O que digo é que é na primeira infância, até aproximadamente os sete anos, que formamos os principais esquemas cognitivos que guiarão nossas ações por praticamente toda a nossa vida. As famosas "crenças".

Iniciamos nossas vidas sem referenciais de comparação. Começamos a dar sentido a tudo que acontece ao nosso redor de acordo com nossa criação, nossos estímulos, recompensas e castigos, sem a possibilidade de inferir entre o certo e o errado. As crianças são simplesmente criadoras de sentidos em um mundo totalmente novo a elas. "O que diziam a mim, quando criança, sobre minha aparência?" "O que me falavam sobre minha capacidade?" "O que eu ouvia sobre dinheiro?" "Eu me sentia amado?" "Eu costumava ouvir nãos? Apenas nãos? Nunca ouvia nãos?" "Estava em um pedestal ou um calabouço?" 

Assim, começamos a moldar os sentidos das coisas que acontecem no mundo.

Vamos crescendo, socializando-se mais, nossos esquemas cognitivos começam a sofisticar-se à medida que vamos interagindo com os esquemas cognitivos de outras pessoas.  Rapidamente, nos tornamos adultos e passamos a finalmente ter crenças baseadas na observação e no aprendizado. Ainda assim, as nossas raízes, aquilo que temos de mais profundo em nossa psique, ainda estão lá: aqueles velhos sentidos que um dia demos a um mundo desconhecido.

Para o olho treinado, não é tão difícil observar as "crianças interiores" se manifestando nos adultos. Às vezes são crianças brincalhonas, até mesmo ingênuas, que nos proporcionam desfrutar do frescor da vida, das coisas simples, e até de uma determinada inocência. Outras vezes são crianças mimadas, que tem dificuldade em dividir, em relacionarem-se com outras pessoas, que continuam mantendo a crença que o mundo gira ao seu redor. Outras vezes são crianças que aprenderam que a agressividade é o melhor caminho, e que podem, assim, dirigir seus carros de forma imprudente, podem subjugar os outros, podem ferir com gestos ou palavras. Quantas crianças interiores adultas conhecemos que não são mais do que seres profundamente carentes, amedrontados em um mundo ameaçador e sem nenhuma possibilidade de sentirem-se amadas?

Não é porque o mundo está cheio de crianças interiores confusas e carentes que precisemos nos resignar. Podemos escolher "deixar a creche." Podemos olhar para nossa criança interior com carinho, pegá-la no colo, agora como adultos, e não apenas agradecê-las, mas principalmente elogiá-las pelo belo trabalho que elas fizeram com a gente pois, independente de nossas crenças hoje, essa criança que um dia fomos fez o melhor possível para entender um mundo que até hoje estamos tentando entender. Só que, agora, podemos com muito amor mostrar a essa criança que outros mundos são possíveis, que outras realidades são verossímeis, que padrões que não trazem plenitude a nossa vida podem ser alterados. Que nossas ações podem ser melhor direcionadas aos nossos objetivos na vida.  Que nossas crenças limitantes podem ser visitadas, entendidas, e transformadas em crenças potencializadoras. 

Um dia, ouvi que a única diferença entre crianças e adultos é o preço dos brinquedos de cada um. Gosto dessa frase. Ela me faz querer pegar no colo minha criança interior criadora de significados com mais carinho ainda, e dizer a ela, de forma muito terna, segura e adulta:

"Eu vou cuidar de você para sempre. Te amo! Agora, enxugue suas lágrimas e vamos juntos dar um jeito de realizar nossos sonhos!"

E seguir pela vida como um adulto levando afetuosamente essa criança pela mão. E não como uma criança levando um adulto de arrasto.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli


sexta-feira, 23 de março de 2018

A Inteligência Emocional no Trabalho


O ambiente profissional é um dos principais contextos onde demonstrações de habilidades da Inteligência Emocional podem transparecer. Pode não bastar apenas que haja conhecimento técnico sobre o trabalho. Para o desenvolvimento de ambos, empresa e profissional, tão importante quanto a prática laboral,  é também preciso saber relacionar-se com as pessoas ao redor, e também consigo mesmo. Ninguém trabalha sozinho. No mínimo, você precisara ter um cliente.

Os questionamentos acerca da suficiência dos famosos testes de QI que ocorreram em meados nos anos 80 foram os primeiros indícios que a grande variedade das habilidades cognitivas humanas poderia estar limitando em muito o nosso conceito de inteligência. Nesse compasso, cientistas como Howard Gardner, Peter Salovey, Joseph Ledoux e Daniel Goleman, entre muitos outros, desenvolveram hipóteses sobre a inteligência humana, onde não necessariamente o conhecimento em si, mas sim a capacidade de se resolverem problemas era o foco principal. Essa capacidade de resolução de problemas, em virtude das estruturas cerebrais, dependia das memórias armazenadas daquela conjuntura do problema, as quais geravam um estado emocional, ou seja, cada situação gera uma emoção antes mesmo de nos darmos conta. Como lidar com essa situação e com as emoções envolvidas culminou com o conceito de Inteligência Emocional.

Nosso cérebro possui três níveis, por assim dizer:  neocórtex (parte consciente e reflexiva), sistema límbico (emocional) e cérebro primitivo, o qual basicamente tem as funções dos comandos “lutar ou fugir”.  A qualidade de nossa própria comunicação com nossa realidade faz com que tenhamos, proporcionalmente, a mesma qualidade de comunicação com nossas emoções, comunicação essa que pode nos limitar ou potencializar como pessoa e como profissional.

Em um ambiente de trabalho, cada pessoa traz suas necessidades, que interagem com as necessidades de todas as outras pessoas ao redor, além das necessidades da própria empresa. Nesse cenário, não é de se estranhar que conflitos interpessoais possam acontecer, uma vez que o trabalho por si só pode significar primordialmente a necessidade de sobrevivência. Assim, nada difere uma reunião de trabalho em uma sofisticada sala climatizada do 20º. andar, de um grupo de caçadores pré-históricos unidos tentando derrubar um mamute: para ambos os grupos, é a sobrevivência que está em jogo, e o “lutar ou fugir” mais primitivo pode ser acionado a qualquer momento. Leve-se em consideração necessidades mais sofisticadas, como as de autoestima ou de autorrealização profissional e o grau da Inteligência Emocional precisará também sofisticar-se, afim de se evitarem os "sequestros emocionais". 

Um ambiente de trabalho emocionalmente inteligente proporciona um cenário favorável ao pleno exercício não apenas emocional, mas também cognitivo, tornando possível o aumento da produtividade e do próprio desenvolvimento profissional. Contudo, é importante lembrar que uma empresa é formada por pessoas, pessoas essas que, ao qualificarem sua intra e intercomunicação a partir da autoconsciência de suas emoções, capacitam-se para não entrar nas estatísticas de Peter Drucker, um dos grandes mestres da Administração moderna, que atestou que "as pessoas são contratadas pelas suas habilidades técnicas, mas são demitidas pelos seus comportamentos”

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli



quarta-feira, 21 de março de 2018

O que NÃO é Inteligência Emocional

O advento da teoria da Inteligência Emocional, mais conhecida pela publicação do livro homônimo de Daniel Goleman, em 1995, contribuiu para uma verdadeira desconstrução do conceito de inteligência vigente até aquele momento. O culto à racionalização pura voltada à resolução de problemas cedia espaço para o estudo do impacto emocional que esses mesmos problemas traziam antes mesmos de se considerar uma resolução a eles. Descobriu-se que antes do neocórtex (parte consciente, racional do cérebro) entrar em ação na resolução de um problema, o sistema límbico (emocional) já havia reagido e gerado emoções constantes em seus "arquivos" de situações similares as daquele problema. Assim, em poucas palavras, ser emocionalmente inteligente é levar ao consciente quais são as emoções que estão envolvidas em determinado momento ou, se não for assim, correr o risco de um assim chamado "sequestro emocional", onde nossos comportamentos podem não ser necessariamente os mais adequados.

Além dessa breve descrição sobre o que É a Inteligência Emocional, considero bastante relevante também discorrer sobre o que NÃO É a Inteligência Emocional. Isso porque um olhar superficial sobre a teoria pode gerar um entendimento prático de que ser emocionalmente inteligente tenha como base suprimir emoções, ou negar que as sente. E a repressão às emoções pode levar a sérios problemas de saúde.

Uma mesma emoção pode ter tanto um viés nocivo quanto saudável. Quem definirá isso será o nível de inteligência emocional de quem a está sentido. Por exemplo,  a ansiedade. Em seu caráter nocivo, causa preocupação excessiva, libera toxinas hormonais, gera subestimação de nossa próprio potencial e reduz nossa capacidade cognitiva. Já em sua faceta saudável, pode proporcionar uma visão mais realista do cenário como um todo e estabelecer um foco no resultado. A própria alegria, saudavelmente sentida, é um verdadeiro indicador de bem-estar tanto psíquico quanto físico, já que é uma emoção relacionada à resistência à dor e a doenças. Porém, em sua faceta nociva, a alegria pode nos desestimular estados reflexivos ou de discernir ameaças iminentes. Com isso, busco chamar a atenção que apenas suprimir ou como popularmente de diz, "engolir" as emoções, pode apenas levar ao desenvolvimento de ressentimentos ou de doenças psicossomáticas que eclodem até mesmo em nosso corpo físico. Assim, Inteligência Emocional não é reprimir. É entender e trabalhar com as nossas emoções e as dos outros.

Considere a qualidade de suas emoções na busca de seus objetivos, pois elas estarão sempre presentes nessa jornada. As emoções podem ser tanto aliadas quanto inimigas, e quem define o time em que elas vão jogar somos nós mesmos.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli


sexta-feira, 9 de março de 2018

A noite escura da alma

Eis que durante nossa jornada, um sentimento de perda de conexão com o que entendemos como divino vai se apossando de nós. Um sensação de ausência de suporte e força espiritual, de desesperança, de falta de iluminação. As coisas parecem que vão pouco a pouco perdendo o valor, deixam de ser gratificantes. Definitivamente, algo mudou em nosso interior. Uma triste impressão que atravessamos um deserto espiritual, que vai drenando amarga e inexoravelmente nossa fé. Tal qual personagens bíblicos como Davi e Jó, e outras pessoas identificadas com a fé, como relatou a própria Madre Tereza de Calcutá, podemos estar experimentando um processo conhecido dentro dos estudos da espiritualidade cristã como "a noite escura da alma". Nada de divino parece mais ter qualquer razão de ser.

Não é um período agradável. Não tem prazo para terminar. Por mais que tenhamos consciência que os desafios são inevitáveis, a carga e a intensidade das provações que precisamos encarar vai absorvendo nossa luz e erguendo essa noite escura em nossa alma. Nosso corpo físico responde com abatimento e cansaço. Nossa mente responte com esgotamento. Nosso espírito resume-se à baixa auto-estima, instabilidade e sentimento de abandono. Sentimo-nos desconectados. Estamos sozinhos perante o mundo. É um momento de tormenta, de vazio, de dúvida, de desequilíbrio, de turbulência, de desespero, de cogitar render-se. 

Contudo, esse momento sombrio precisa ser atravessado. Pois não é a escuridão que vai passar por você: é você que precisa passar pela escuridão. Por menor que seja a fagulha de fé que sua alma ainda consiga produzir, acenda sua vela e siga.  "Se está atravessando o inferno, continue atravessando: não é um bom lugar para parar".

A natureza nos ensina que depois da mais escura das noites, vem a luz do amanhecer. Ela vem tímida, devagar, em seu tempo, mas nunca deixa de vir. A noite escura da alma é um verdadeiro paradoxo metafísico. Passar por essa noite é reconhecer e familiarizar-se com a escuridão das sombras,  desenvolver recursos para aprimorar não apenas os 5 sentidos físicos, mais também os sentidos espirituais. Com isso, o sofrimento provocado pela escuridão dessa noite nos proporciona desenvolver mais recursos espirituais para seguirmos nossa jornada mais fortes e, principalmente, dando mais valor à luz.

E só sabemos o que é a luz porque conhecemos a escuridão.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli





segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Vivendo no mundo VUCA


Com o fim da Guerra Fria, estudos geopolíticos e sociais foram realizados para se procurar entender qual modelo de mundo de ergueria daqueles tempos e adentraria o século XXI. A Academia do Exército Americano, nos anos 90, concluiu esse estudo denominando a nova ordem mundial com o acrônimo de VUCA (volatity, uncertainty, complexity e ambiguity), ou seja, o mundo seria mais volátil, mais incerto, mais complexo e mais ambíguo.

Uma sensação de estarmos fora de controle no espectro social, político e econômico pode ser uma das provas mais claras que o mundo VUCA é uma realidade. As grandes empresas não demoraram para assimilar esse conceito, desenvolvendo planejamentos estratégicos onde a rápida capacidade de resposta às demandas do ambiente é tão ou mais importante do que visualizar cenários de longo prazo.

Da maneira que for, todas essas mudanças desembocam no ser humano, que precisa desenvolver recursos para viver nesse ambiente volátil, incerto, complexo e ambíguo. 

Conviver com a volatidade é desenvolver recursos para se lidar com o inesperado. Não parece mais haver um caminho estruturado para se chegar aos objetivos. Desenvolver resiliência para adaptar-se aos novos cenários e manter-se íntegro perante bruscas mudanças que esse mundo propõe é uma das chaves para se lidar com essa perspectiva. Um mundo guiado pela incerteza nos abre os olhos para como podem ser imprevisíveis as consequências das mudanças, mesmo que tenhamos entendimento das relações de causa e efeito. Há de se instrumentalizar com flexibilidade para se encontrar diferentes opções de se vencerem os desafios. A complexidade do mundo VUCA enfatiza a ampliação da conectividade e a interdependência entre relações, o que aumenta de forma descontrolada o número de variáveis as quais precisamos manejar. Apesar de não ser possível prever os resultados tão facilmente, essa complexidade pode ser gerenciada a partir do contato multidisciplinar de fontes de conhecimento, pois quanto mais nos aprofundarmos nos mais variados campos de conhecimento, melhor será nossa capacidade de administrar essa diversidade de variáveis. Por fim, viver em um mundo ambíguo significa precisar conviver com muitas formas diferentes de interpretação de um mesmo fato. Muitos olhares e muitas visões de mundo tornam os cenários bastante movediços. Tomar decisões, nesse contexto ambíguo é posicionar-se e, para isso, é necessário coragem. Mesmo assim, nossos posicionamentos precisam gerar aprendizados que vêm da ação, tanto a partir dos acertos quanto dos erros.

Tão importante como conhecermos a nós mesmos é conhecer o contexto onde estamos. Aprimorar os recursos internos necessários para viver nos diferentes mundos que nós, seres humanos, já nos adaptamos, é o que vem nos mantendo nesse mundo como espécie, seja no mundo das cavernas, seja no mundo VUCA.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Homeostase do corpo e da alma

Teria sido uma aula de biologia perdida nos porões da memória, não fosse pelo termo que a professora utilizou, e do qual nunca me esqueci: homeostase. Naquela tarde de algum ano de alguma década passada, aprendi que homeostase relacionava-se ao perfeito equilíbrio de um organismo vivo, a qual, através de regulações internas dinâmicas e funcionais, mantinham o corpo de um ser vivo estável a ponto de a vida poder ser mantida. São conhecidas diversas situações que podem colocar a homeostase em risco e, consequentemente, a vida, como alterações de temperatura, níveis de pH, concentração desregulada de nutrientes como a glicose, falta de absorção de oxigênio, entre outros. 

Somos a geração que tem obtido os melhores resultados em termos de longevidade. Para se ter uma ideia, nos últimos 15 anos, a expectativa de vida no mundo aumentou em 5 anos. Graças a muitos avanços na área da Medicina, aliado a cada vez mais acesso à informação, conseguimos manter nossa homeostase por mais tempo. Porém, qual tem sido a qualidade desses nossos anos a mais em nossa jornada nesse planeta?

A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 700 milhões de pessoas ao redor do mundo sofram de transtornos de ordem mental, como depressão, ansiedade,  síndromes de pânico e diversos tipos de psicose. Além disso, é considerável o aumento de diagnósticos de doenças psicossomáticas, aquelas que são originadas das emoções mal administradas e que têm efeitos sobre o corpo físico, como doenças de pele, desordens intestinais, estomacais, alterações na pressão sanguínea e tensões musculares e nervosas pelo corpo. Assim, apesar de vivermos mais, corremos mais risco atualmente de não conseguirmos aproveitar nossas vidas com mais qualidade, principalmente quando o stress está instalado em nosso corpo.

Stress, em Inglês, não significa nada mais do que "pressão, força exercida sobre, ênfase". Existem diversos momentos de nosso dia em que é necessário fazer uma força a mais, chegar um pouco além, estarmos preocupados com algo, "esticar a corda". O problema real começa quando essa força física e mental extra nunca deixa de ser exercida, pois demanda do corpo uma produção exagerada de hormônios como cortisol, adrenalina e noradrenalina.  A produção exagerada desses hormônios têm resultados visíveis na homeostase, como aumento da frequência cardíaca, aumento dos níveis de açúcar no sangue, estreitamento dos vasos sanguíneos, tensões musculares, entre outros, incluindo diabetes. 

Precisamos diminuir nossos níveis desses hormônios no corpo. Se esses níveis não diminuírem, eles, em breve, cobrarão seu preço. Precisamos refletir sobre a manutenção de nossas vidas não apenas em nível corporal, mas também espiritual, uma vez que os métodos indicados pela medicina tradicional receitam exatamente o relaxamento: procurar dormir bem, exercitar-se, reconhecer pensamentos estressantes e aprender a lidar com eles, divertir-se mais, consumir alimentos mais saudáveis com mais frequência, conectar-se com outras pessoas e/ou com o divino e, acima de tudo, respirar. Sim, respirar. Seja com meditação, com yoga, ou apenas com um simples exercício de respiração atento, de forma lenta, profunda e ritmada. Práticas que tornam possível uma verdadeira homeostase da alma. E que vão refletir na homeostase do corpo.

Esse texto foi escrito por diversas mãos. Além das minhas, pelos meus mestres que me ensinaram o Coaching, e me proporcionaram ampliar minha consciência. Por minha médica, a qual exigiu de mim praticar técnicas de respiração mais seguidamente para minha que minha homeostase se reequilibrasse, depois do meu último check-up. E por uma professora de biologia que nem lembro o nome, mas cujo ensinamentos atravessaram os anos e desembocaram nessa reflexão.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli




domingo, 21 de janeiro de 2018

Cultura organizacional: a base do iceberg

“A cultura organizacional devora a estratégia no café da manhã”. A famosa frase duvidosamente atribuída a um dos pais da Administração moderna, Peter Drucker é, contudo, uma interessante compilação de suas ideias sobre o tema. Ela não quer, de forma nenhuma, minimizar a relevância do planejamento nos ambientes corporativos, mas sim, enfatizar a relevância do desenvolvimento de comportamentos e práticas organizacionais que possibilitem a execução das estratégias da melhor forma possível.

Em geral, mesmo que empresas já no papel tenham seus conceitos de missão, visão e valores, será a disseminação e a prática desses conceitos que os validará. Práticas essas que são originárias das mais profundas crenças que a organização tem, as quais, por sua vez, geram ações, que geram resultados. Quando há desalinhamento entre os conceitos escritos e os de fato praticados, uma cultura alheia àquela que a organização entende ter começa a se estabelecer, pois a presença de cultura organizacional é tácita, de uma forma ou de outra.  Se a organização não se preocupar em cultivar sua cultura através de ações, facilmente os colaboradores construirão por si mesmos uma cultura do ambiente e, nesse momento, a organização pode se arriscar a ver implementados hábitos, costumes e comportamentos desalinhados com o que a direção ou os fundadores da empresa acreditam. Nascem “líderes de vícios”, pessoas que vão ampliando distorções na cultura almejada através de ciclos de feedback e de reforço oriundos de práticas viciadas que vão se perpetuando.

Diversos elementos vão sendo acrescentados a um caldeirão de onde a cultura organizacional emerge: qualidade de governança, processos, estrutura, metas, pessoas, entre outros.  A combinação desses elementos gera verdadeiros “símbolos” dentro de uma corporação, um processo semiótico que desemboca na prática de rituais e rotinas entendidos como os mais apropriados em determinados contextos, seja nas mesas de escritório, seja no chão da fábrica. Ambos cliente interno (colaboradores) e  cliente externo (quem adquire produtos ou serviços) sentem os efeitos do resultado dessa mistura de fatores, seja para o bem, seja para o mal.

Imageticamente, a cultura de uma empresa pode ser comparada a um iceberg. A parte visível, aquela orientada às tarefas, compõe uma pequena parte do todo do gigantesco bloco de gelo, que é sustentado pela parte submersa dezenas de vezes maior, aquela que não se vê, e que pode corresponder, em uma empresa, aos padrões também não visíveis , como o clima organizacional, os processos sociais, psicológicos e comportamentais.


Por tratar-se de cultura, não cabem conceitos como certo ou errado. O que há são culturas organizacionais diferentes. Ainda assim, buscar o equilíbrio e o alinhamento entre a base e o topo do iceberg organizacional é trabalho fundamental para qualquer instituição que sinceramente almeje a concretização de seus melhores planos e o cumprimento de sua missão.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Derrubando a quarta parede

Existe um termo do teatro que se chama "quarta parede". É como se houvesse uma imaginária  parede transparente em frente ao palco. Ampliado para cinema, televisão e literatura, esse termo indica que toda a ação apresentada se dá, simbolicamente, em um ambiente todo fechado dentro de sua própria representação, onde os atores e personagens não podem ver ou interagir com o público, mas que a plateia, sejam expectadores ou leitores, pode presenciar o desenrolar da obra.


Muito comum é a comparação da vida com uma história que vai se escrevendo todos os dias. Com isso, quantas questões podem surgir: qual tem sido o enredo e o gênero dessa história? Qual é o nosso lugar na história de nossa própria vida: protagonista ou coadjuvante? Quem são os personagens que nos cercam? Quantas reviravoltas podem acontecer? Qual é a situação atual? Qual é o desfecho esperado? 

Acontece que mesmo sendo a vida uma história, ela não é uma representação fictícia. Ela é real As páginas escritas todos os dias são registradas para sempre. Os personagens sofrem e desfrutam consequências reais por suas ações todo o tempo. O ritmo dessa narrativa vai, em grande parte das vezes, já deixando pistas de qual será o seu desenlace.

A vida "real" está do outro lado da proteção da quarta parede.

Ainda bem que existe um recurso o qual é também um conceito teatral, em que os personagens interagem com a plateia, falam com a câmera ou dirigem-se ao leitor: "derrubar a quarta parede".  O efeito esperado é tornar menos fictícia a representação da história, de modo que a plateia participe de forma mas ativa e rompa a atmosfera de fantasia a qual estava antes confortável e passivamente inserida. Que sinta-se do lado de dentro da história.

Chega um momento em nossas vidas que precisamos descobrir o que é ficção e o que é realidade. Sobre qual é a história que estamos contando para nós mesmos apenas para manter nosso ego sob controle, e qual é a história que sabemos que nascemos para vivenciar.

Onde estamos na narrativa de nossa vida? Atrás da quarta parede? Na plateia? Sendo coadjuvantes de sonhos alheios? Ou ativamente, interagindo com a vida, sendo personagem principal de uma linda e profunda história, que deixa boas lições a quem por ela se interessar?

Nossa vida está em cartaz, aproveite-a da forma mais real possível!

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli





quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O paradoxo do queijo suíço

Certa vez, em algum lugar, em algum momento da minha vida, li esse paradoxo, o qual nunca esqueci. Sempre que o citava para alguém, era para descontração. Até que, outro dia,  dei-me conta da profundidade que aquela aparente brincadeira trazia em si:

"Um queijo suíço tem buracos
quanto mais queijo, mais buracos
cada buraco ocupa um lugar onde deveria haver queijo
quanto mais buracos, menos queijo
então
                                                                               quanto mais queijo, menos queijo!".

Com esse paradoxo em mente, refleti: o que em nossa vida vem tendo a mesma funcionalidade do "quanto mais, menos"? Quais são os comportamentos que não conseguimos mudar, e que sabemos que só nos causam mais e mais espaços vazios? No que abusamos ou nos excedemos, para logo descobrirmos que estávamos indo em direção ao "nada"? Quantas de nossas atitudes "sins" estão carregadas de sentimentos "nãos"? Quais os excessos que cometemos que, no final das contas, nos deixam com a sensação de "menos" do que de "mais"?

Haverá em nossa vida hábitos que, embora bem intencionados, foram mal administrados e acabaram virando sorrateiros e corrosivos vícios?

Ao contrário do queijo suíço, nós temos escolha de não cultivarmos tantos espaços vazios. Precisamos olhar para nós mesmos e descobrir maneiras de fazer o máximo com o mínimo que tivermos. Nesse contexto, a máxima "menos é mais" cabe muito bem, desde que o sentimento de plenitude ocupe com harmonia os espaços incompletos de nossa existência.


Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Não basta querer. E também não basta agir.

A teoria da Inteligência Emocional baseia-se na hipótese de que nosso cérebro é formado por três níveis: o mais primordial, responsável basicamente pelas atitudes de luta ou fuga; o cérebro límbico, onde ficam armazenadas memórias de experiências e emoções ligadas a elas; e um cérebro racional, o neocórtex, o grande responsável por nossa capacidade analítica. Apesar de parecer que é no neocórtex que nossas decisões são tomadas, a disposição física e biológica de determinadas áreas cerebrais faz com que nossas respostas provenham primeiramente do cérebro emocional, para, só depois, serem racionalizadas. Por isso, a importância de estarmos conscientes de nossas emoções, e do peso que elas têm em nosso comportamento e no nosso agir. De outra forma, seguiremos sendo “enganados” por uma suposta racionalidade em nossas atitudes, o que pode ser apenas uma ilusão. Antes sentimos, depois refletimos. Isso, caso ainda haja tempo para o neocórtex agir antes de uma atitude ou de uma tomada de decisão.

O que define aquilo que você chama de “eu”? Será o seu corpo? Sua mente? Sua alma? Suas crenças? Sim, pode ser tudo isso. Porém, no fim das contas, o que rege tudo o que  conceituamos como “eu” são nossas emoções e sentimentos. O que molda nossa  personalidade é o conteúdo e a forma com que nossas emoções permeiam nosso ser. E aí que está o grande desafio:  temos um ego, uma parte psíquica que vive nos protegendo do que julga ser perigoso. E, para o ego, o “desconhecido”, o  “novo”, pode soar perigoso. Para não abrirmos mão do que chamamos de “eu”, nos aferramos a um mindset, um padrão mental já conhecido. Nos viciados em nós mesmos. Consequentemente, tornamo-nos verdadeiros viciados em nossas próprias emoções.

Quando vamos em busca de um objetivo, temos despertado um querer. Então, do querer, deve vir o agir. Mas não basta querer. E também, não basta agir. Caso esse querer e esse agir estejam em nível puramente racional, o mais provável que acontecerá é que esse objetivo não seja alcançado, pois ele não está alinhado com o sentir, que é o que vai mesmo te mover até o objetivo.

São nas nossas emoções e nos nossos sentimentos onde estão nossos verdadeiros “quereres”. Se digo que quero economizar para comprar um carro, por exemplo, e isso está em nível apenas racional, é capaz de até conseguir juntar algum dinheiro durante dois ou três meses. Daqui a pouco, ao invés de reservar o dinheiro para o carro, me vejo gastando com algo supérfluo. Isso não quer dizer que sou incapaz de atingir meus objetivos. Isso quer dizer que meus sentimentos com relação a esse objetivo não estão bem claros ou alinhados com esse objetivo.  Então, sigo alimentando meu vício emocional do meu próprio “eu”.

Essa gama de emoções que serão o firme alicerce da conquista de um objetivo demandam também dedicação e foco.  Porém, não no modelo racional da dedicação, em que pode haver mais sofrimento do que prazer no caminho. Não no modelo do “tenho que” fazer tal coisa. Mas sim, no modelo do “eu escolho” fazer tal coisa, “eu DE VERDADE escolho esse objetivo para mim”. Esse é o padrão que produz a resposta emocional do querer, esse é o padrão que nos defenderá das temerárias atitudes autossabotadoras, as quais só nos causam frustração e culpa e aumentam nosso vício em emoções e necessidades que nem ao certo estamos muito conscientes.

“Querer” e “sentir” devem estar na mesma sintonia quando temos um sonho. Em muitos casos, além de buscarmos aprender novas formas de chegar lá, precisaremos também desaprender certas crenças e sentimentos limitantes.

Até quando vamos continuar preferindo os ganhos secundários de nossas pequenas traições diárias? Até quando os programas automáticos memorizados em nosso corpo e alma nos controlarão? Até quando insistiremos em quereres os quais não nos causam nenhum brilho nos olhos? Até quando deixaremos de sermos protagonistas de nossas vidas? Até quando nossa história será contada em terceira pessoa?

Convido-lhe a um diálogo com suas próprias emoções. Reconheça-as. Observe seus pensamentos.  Sinta quem ou o que você é, e não quem quer parecer ser.  Não podemos deixar para depois, pois quanto mais a vida avança sem esse controle, mais à mercê de padrões subconscientes ficamos. Nesse processo, não há ninguém julgando, dizendo se está certo ou errado Só há você.

Querer e agir. Acima de tudo, sentir.


Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O bagaço de nosso amor

Por acaso, teríamos nós dois tipos de pessoas em nossas vidas, aquelas a quem sentimos obrigação de sermos polidos, e aquelas que temos o direito de sermos grosseiros?

Acredito que não. Ainda assim, palavras e atitudes grosseiras acontecem. E, por vezes, envolvendo pessoas que amamos.

Muito se fala em autoconhecimento. Muitos o procuram, cada vez mais. Eu mesmo sou mais uma dessas pessoas, sem dúvida. A cada dia, novos processos, novas aprendizagens, novas percepções, novas sinapses neuronais e, com isso, a sensação de estarmos em um caminho de contínuo aperfeiçoamento mental e espiritual. Tornamo-nos mais elevados, mais educados, mais sensíveis, mais iluminados. Nos limites de nossa razão, acreditamos transmitir serenidade, confiança e paz de espírito aos demais ao redor. Temos a impressão de espalharmos amor. 

Em situações em que as convenções sociais sejam mais protocolares do que espontâneas, até segunda ordem, somos propensos a exercer nosso cultivo intelectual e nossa presteza com paciência e respeito, colocando em prática muito do que conhecemos sobre autocontrole e inteligência. emocional. Com empatia e candura, conseguimos ser fonte  de sensibilidade às pessoas com quem nos relacionamos, mas que não temos necessariamente intimidade. 


Isso na "rua." Até aí, tudo bem.


E por que esse padrão de comportamento gentil parece não ser necessário nas relações com pessoas íntimas? "Em casa?"

"Porque, "com os "de casa", tenho liberdade de estar de mau humor. Tenho liberdade de dizer o que eu quiser. De ser irônico. De ser ácido.  Tenho liberdade de "ser sincero". Afinal, são pessoas com quem não há nenhuma necessidade de formalidade. Se fui grosseiro hoje, amanhã já estará tudo bem."

Será que estará "tudo bem", mesmo?

Em nome de uma dita "sinceridade" a que a intimidade convida, tendemos a falar o que vier à cabeça, sem considerar muito bem os danos emocionais que podemos causar com nossa pretensa sinceridade. Não seria melhor nos orgulharmos de sermos mais assertivos do que sinceros? "O que de ganho a outra pessoa terá ao ouvir o que tenho a dizer?" "Não vou apenas magoar ou menosprezar essa pessoa com minha fala"? "Qual a forma mais elegante, e ainda assim mais direta de se dizer determinada coisa?"

Parece-me paradoxa a prática de guardar o melhor de nós para todos os demais, e deixar  nossa versão mais obscura para "os de casa", para as pessoas que realmente se importam conosco nos detalhes mais decisivos e também nos mais triviais.

Que nossas "casas" sejam, de fato, nosso ponto de equilíbrio. Nosso paraíso emocional, de liberdade para sermos de fato quem somos, com uma convivência harmônica com todas as demais criaturas com quem estamos compartilhando esse momento da existência. Onde possamos estar inteiros, dividindo o néctar de nosso amor, sendo empáticos com a forma de que nossos gestos, posturas e palavras chegam no outro, e não espedaçados como o bagaço de uma fruta já exaurida do que tinha de melhor.

Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Vivemos de poesia

Em seu sentido literal, poesia é um trabalho de composição harmônica de versos e palavras em busca de geração de emoções, sentimentos e sensações.

E o que é nossa vida, no final das contas, senão uma busca existencial incessante por harmonia também de emoções, sentimentos e sensações?

Vindo do mesmo grupo etimológico, os antigos gregos tinham a palavra poiesis, conceito que significava “aquilo que se cria”, “a obra construída”. Essa concepção era aprofundada em diversas dimensões da vida, fosse a “construção de uma família”, o fazer algo bem feito, ou ainda, relacionado a uma profissão ou ocupação. Assim, trabalhar e viver sua poiesis adquiria um sentido mais intenso do que simplesmente ganhar dinheiro e sobreviver aos dias: vivia-se pela “sua obra”, por sua história e seu legado. E essa “obra” era como se fosse uma verdadeira “obra” de arte: havia de despertar emoções, como se todos fossem verdadeiros artistas no exercício de suas vidas.

Esse anseio poético pelo seu ofício nunca deixou de existir. Porém, o quanto da qualidade dessa poesia vem sendo negligenciada em nossos dias?

Como é vertiginosa a rotina profissional de apenas trabalhar sem uma perspectiva emocional de plenitude, sem ver propósito no que se faz, sem conseguir transformar seu trabalho em uma “obra” digna para si mesmo. Seja qual for nossa ocupação profissional, façamos dela algo que seja como a poesia: harmônica para nós mesmos e para o bem comum, que todos possam usufruir de bons sentimentos a partir de nossas obras.

Que possamos resgatar a poiesis grega em nosso dia-a-dia, nas atitudes que tivermos com relação a nós mesmos e com os outros, seja na vida profissional ou pessoal. Que esse resgate signifique a completude emocional em relação à “obra” de nossas vidas. 


Nesse sentido, talvez nossa vida venha sendo uma poesia triste. Talvez feliz. De qualquer forma, a verdade é que vivemos de nossas histórias. Vivemos de poesia.  E como essa poesia entrará no livro dos dias da eternidade dependerá do conjunto das obras de cada um de nós.


Grato pela confiança,
Marcelo Pelissioli